Há bastante tempo, decidi que queria A Geografia das Curvas para escrever sobre coisas que me dão gozo. As conas molhadas e os caralhos hirtos que se cruzam e fazem vir, ou as diferenças entre os machos e as fêmeas, ou até as viagens no interior da mente. Quando assim pensei, apaguei alguns textos que já havia escrito sobre questões profissionais, e outros, apenas para minha memória futura, arrumei a um canto, em arquivo morto – o que é um pouco aquilo que me aconteceu durante largos meses onde estou, arquivo morto -. Mas, bem se vê, A Geografia das Curvas é muito minha. Não tenho obrigação de agradar a quem me lê, embora fique mais satisfeito quando isso acontece, não tenho de limitar-me naquilo que escrevo senão por condicionantes de reserva pessoal que em rigor todos nós temos, e este pedaço de internet é uma extensão de mim mesmo. Com a vantagem de ser residualmente lida, aposto, mas ainda assim, se poucos, que sejam bons.

No meu último texto quebrei a minha própria regra de não trazer para aqui escrita profissional, da minha própria experiência. Mas a minha cabeça estava coberta de nuvens escuras, e com essas nuvens sobre mim é certo que nem consigo pensar em coisas novas de conas e caralhos, nem sequer dar saída a coisas que já tenha escritas à espera de ver a luz dos bytes. Esta semana começou com horas de – não penso que seja exagero – desespero. De um profundo sentimento de injustiça. Não é nova, nem exclusiva, nem maior ou menor que outras. É a minha sensação de injustiça, e portanto faço com ela o que preciso face ao valor que lhe dou. Outras pessoas viveram isto, vivem, ou hão-de viver. Lamentavelmente. As instituições não variam muito. Sejam grandes ou pequenas, privadas ou públicas. Há sempre sapos. Há sempre gente mal intencionada, mal formada. É fácil encontrar quem nos queira prejudicar, quem se deixe influenciar, quem vá em cantigas de suave veneno, ou seja, tão só, velhaco, viscoso, contabilista de moedas sem face nem história. Onde existir uma organização, existe um déspota. E, normalmente, sempre o serão até que alguém se encha de peitaça e lhes faça frente. Paga-se sempre um preço por isso. Mas há momentos em que é incontornável, e a nossa dignidade quando se pica, tende a dar sinal. Há momentos em que entendemos que se damos o cú, vamos ser enrrabados o resto da vida, até que deixe de doer e nos pareça normal e salutar ser-se enrrabado. É um conceito que me custa aceitar, o de que ser enrrabado seja normal e salutar. E desculpem-me se, por momentos, chego a duvidar se enrrabado se escreve com único ou duplo ‘r’. É um dos problemas do acordo ortográfico, sabeis? A mistura começa a ser tanta, que por vezes damos por nós a duvidar. Mas o enrrabamento parece-me drástico o suficiente para merecer duplo ‘r’.

Da guerra, não conheço o desfecho. E continuo sem saber se a minha vida está na ascendente ou numa descendente subtil. Sei apenas que a batalha, esta batalha, está ultrapassada. Esta semana tentaram, de novo, reduzir-me a um fecalito. Tentaram fazer de mim um joguete, procuraram levar-me a aceitar uma solução inaceitável. Que me faria dar o cú. E o meu cú eu só dou ao toque rectal quando a idade a isso me obrigar. Não terei a experiência de uma muito longa vida profissional, mas também não foi ontem que deixei as cadeiras de madeira dos anfiteatros onde me licenciaram para exercer uma determinada profissão, não foi ontem que entrei aqui para fazer coisas demasiado sérias, de demasiada responsabilidade. E por isso exigi respeito.

Disparei em todos os sentidos. Mobilizei todos os recursos que tinha ao meu dispor. Amigos e devedores. Toda a gente. Procurei ajuda. Procurei aconselhamento. E as coisas resolveram-se. E a ameaça que sobre mim pendia parece ter sido afastada, ou pelo menos adiada. Também se aprendem coisas com isto. Coisas úteis. Quando nos tentam meter um dedo no cú, o cú aperta. É instintivo. Quando temos de nos defender de um ataque matreiro, até o mais plácido ser se contorce e faz uso das munições. E percebi melhor o equilíbrio de forças. Quem está contra mim e quem está por mim, percebi melhor os jogos de bastidores. Cabe-me registar, e lembrar. Para uma próxima. Estamos sempre por nossa conta, sim. Ninguém tem a obrigação de nos defender, senão nós mesmos. Mas ainda há gente que gosta da gente, ainda há gente que se revolta com injustiças, e ainda existem teias de suporte. Precisei delas, e elas funcionaram. E com isto espero não voltar tão cedo aos aborrecimentos profissionais. Gosto de um’A Geografia das Curvas com outras coisas. Com as conas e os caralhos, com as gentes que dizem que se estão a vir, com as gentes que dizem que não existes, que parecemos animais, com as viagens que fazemos dentro das nossas cabeças à procura das nossas origens, dos nossos blocos fundamentais. Gosto muito, muito mais disso. Do que já escrevi, e do que ainda vou escrever, oxalá o próximo que aqui apareça seja já disso. De um outro mote, para nos fazer voltar a sorrir, matreiros, como crianças apanhadas com o dedo no frasco do tulicreme (neste caso não é eufemismo para dedo na cona, mas conheceis-me, espero… vai lá dar. Sempre ao mesmo).