Recordo – confesso que com um sorriso – uma discussão animada sobre bilhetes de autocarro e metro de uma cidade fora de Portugal. Havia, na sala onde a conversa decorreu, quem ficasse perplexo com a minha necessidade em conhecer antecipadamente o funcionamento do sistema, assim como havia quem pensasse exactamente como eu e já tivesse feito iguais raciocínios. Querer conhecer o sistema de transportes públicos de uma cidade antes de lá ir – o que era manifestamente mais difícil, embora não impossível, antes da internet – é uma coisa com a qual talvez apenas se preocupem os control freaks. As pessoas mais descontraídas possivelmente nem querem saber. Chegam lá e logo descobrem. Perguntam. Interagem. Talvez até enfiem uma argolada qualquer, talvez até cometam alguma ilegalidade, mas a ignorância é bela e desde que não sejam apanhadas, vão felizes, com bilhetes inválidos ou mais caros que o necessário ou qualquer outra coisa. Mas depois existem as pessoas que gostam de ir com tudo organizado. Que não reservam grande espaço para a surpresa desagradável. Não me parece correcto dizer-se que são pessoas que não gostam de surpresas. Isso será falso. Gostam de surpresas sim, desde que sejam boas. Mas temem e evitam as surpresas negativas. E sobre esse tipo de possibilidade actuam como gente doida por controlo, que já sabem, mesmo sem conhecer o sítio, o que vão comprar, onde vão comprar, que linhas de metropolitano vão apanhar, quanto vão gastar, etc. Na verdade, isto tem muito de desaparecimento na multidão. De blending in. Talvez mais do que um sinal de querer controlo, seja uma forma de não querer ser-se notado. De, mesmo perante uma novidade, querer parecer-se rotinado, conhecedor, diluído nas hostes que já sabem como funciona. Sentimento de pertença. Eu pertenço ao sistema. E como lhe pertenço, não faço figuras que percepciono como potencialmente ridículas. Não me exponho. Comporto-me como mais um entre pares. Não quero que percebam que sou um invasor, um elemento estranho. Que este biótopo não é o meu.

Há muito tempo que não viajo em trabalho. As prateleiras e gavetas têm esse resultado. Não há muito para onde ir. Das prateleiras pode cair-se, e nas gavetas o espaço é apertado. Mas, com muito pouca probabilidade de acontecer, talvez me veja a viajar de novo daqui a alguns dias. E isso fez-me pensar, novamente, nas investigações antes da viagem. Onde ficam as coisas. Onde é o quê. Que distâncias. Como se chega lá. Que bilhetes compro e que linhas devo apanhar (embora neste caso isso não se aplique). E ao retomar esses pensamentos, cria-se em mim esta dúvida. Se é a velha mania de querer controlar tudo, ou se é o desejo de desaparecer na multidão dos comuns. Uma, ou outra. Porque as duas juntas sempre dão mais trabalho.