As coisas grandes

Quando pensamos, pais e mães, nas nossas crianças, pensamos nas coisas grandes. Preocupa-nos que não lhes faltem cuidados de saúde, que tenham acesso à educação, alimentação correcta e bastante, roupa sobre o corpo, uma casa digna com brinquedos e, obviamente, o nosso amor e carinho, e uma família estruturada. São grandes caixotes, são as nossas preocupações macro. Procuramos pautar a vida de modo a que nada destas coisas lhes faltem, mesmo com sacrifício do nosso próprio conforto e realização. Quando olhamos para adultos com algum tipo de lacuna, é fácil pensar que algo lhes faltou destas grandes coisas. Que os pais não o amaram, que a casa era pobre, que não teve cuidados médicos adequados, que se alimentou mal, que teve más companhias, que não estudou tanto quanto devia, e embora tudo isso possa ser verdade, de forma isolada ou em conjunto, porquanto eu não recuso a ideia de que estes grandes valores ou vectores sejam importantes até algum ponto, pode muito bem acontecer que um adulto tenha, em criança, tido tudo quanto se considera importante, e mesmo assim, tendo crescido, manifeste algum tipo de desenquadramento face à moldura que se espera que tenha ou, muito mais importante, face à moldura que ele próprio quer ter.

Olhar para dentro, já o disse, é difícil. Evitamo-lo tanto quanto podemos, ou dar-se-á até o caso de nunca termos sequer sentido essa necessidade. Ou, sentindo, ter fugido. Porém, algum dia chega em que algo nos força a olhar para dentro, primeiro, e para trás, depois. E quando fazemos esse exercício, mais ou menos doloroso conforme o que encontramos, compreendemos que os grandes valores, as grandes caixas com coisas que nos são ferramenta, são importantes, sim, mas não são necessariamente as mais importantes. Enquanto adultos, perante as nossas crianças, temos um poder enorme para fazer asneira. E se pensamos que a asneira é falhar enquanto pais naquilo que a sociedade espera de nós, convirá tomar consciência de que não é exactamente por aí. Sem sequer desconfiarmos, podemos marcar uma criança, e criar-lhe constrangimentos futuros e bloqueios que nem sempre serão facilmente compreendidos, com coisas pequenas e aparentemente insignificantes. Uma palavra que se disse num qualquer momento ou alguma que ficou por dizer quando teria sido importante, um gesto, um comportamento nosso que a criança tenderá a copiar no seu futuro, um silêncio continuado, um riso trocista na aparência ainda que inocente na essência, estas e tantas outras coisas aparentemente banais podem deixar uma marca perene no inconsciente das nossas crianças, condicionando-lhes a vida mais tarde, quando elas, por algum motivo, reviverem alguma memória ou emoção que devolve essa marca ao presente, e que podem não saber identificar correctamente o que é, como arrumar na gaveta das memórias inócuas, ou ultrapassar com segurança.

Os pais e as mães deste mundo fazem aquilo que podem, normalmente apostados no melhor. Acham que há coisas seguras, comportamentos ideais, linhas de ser e de estar que farão dos seus filhos os adultos íntegros, bem resolvidos, bem acabados, prontos para tudo. Poderão fazer tudo como manda a etiqueta, poderão ser ou parecer exemplares. E se calhar, numa qualquer tarde, estragam tudo sem saber, com um gesto ou uma frase que se planta na cabeça e vai germinando, até brotar insegurança ou despreparo. E é preciso olhar para dentro, e é preciso olhar para trás, para perceber isto. É preciso estar no hoje e no aqui, identificar aspectos com os quais não estamos confortáveis, e perguntar sem medo “porquê?”. E quando a resposta começa a vir, começamos a entender. E surgem mais perguntas, e vamos mais lá atrás, e tudo se torna mais claro. Não necessariamente mais simples, mas mais claro. E conhecer a origem das coisas é essencial para as resolver. De outro modo, estaremos apenas a tratar a dor com um analgésico, sem nunca remover o que efectivamente cria a dor.

Tenho muitas dúvidas de que alguém se possa considerar de acabamentos tão perfeitos que a sua vida dispense alguma introspecção. Em graus variáveis, toda a gente, em algum momento, precisou ou vai precisar fazê-lo. E a vantagem é dupla. Como adultos, começarão progressivamente a necessitar de menos analgésicos porque a dor se vai eliminando na origem. E como pais, se o forem, vão percebendo melhor o efeito que podem ter nas crianças, e talvez produzam futuros adultos um pouco menos chanfrados do que a geração que lhes deu origem.

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