Rua de Campolide em Lisboa. Eu e dois amigos à mesa. Filetes de polvo com o respectivo arroz, e verde tinto, em malgas, como a um minhoto convém.  A conversa começou sobre trabalho, depois para o país, algumas viagens que um tinha feito e outro queria fazer, e depois, a dado momento, o futebol. Nesse momento reduzi-me ao silêncio. Fui ouvindo e pensando coisas para mim. Discutiam, como tantos homens fazem, as coisas da bola, e eu a pensar em como é admirável saberem com detalhe quantos milhões se gastaram na transferência dos jogadores, e a forma como os tratam pelo primeiro nome, como se fossem todos amigos, companhia lá de casa. Havia de ser giro se isto fosse aplicado a qualquer outra profissão. Que movimente multidões, paixões, não sei. Não quero saber. Mas discutem o trabalho daqueles rapazes como não o fazem com o trabalho de outros. Havia de ser giro se fosse outra coisa. Pintores da construção civil, por exemplo. Eh pá, já viste, querem levar o Rodrigo! O puto chegou à empresa por 25 milhões e fartou-se pintar, poupou imenso à empresa com a sua técnica de rolo e trincha, e agora um chinês qualquer quer vendê-lo pelo dobro! Que levem o Patrício, que nunca acerta os tons e as pinturas ficam todas imperfeitas, nunca passa o rolo como deve ser. Mas o que me fechou mais, a certo ponto, foi pensar nesta coisa que os homens têm de falar de futebol. Parece uma inevitabilidade. E pensar em como eu não me interesso nada por isso. E isto nada diz da inteligência ou capacidade. Não é isso que está em consideração, é apenas a diferença de interesses na vida. E os meus não passam por bolas, balizas, e putos cheios de milhões às costas. Vivo bem sem isso. Por mim o futebol podia acabar ontem. Era igual. Talvez melhor. Filetes de polvo com o respectivo arroz no meu prato, eles a falar de bola, eu com expressões de condescendência e sem qualquer receio de assumir que o assunto me é inteiramente diagonal, e por vezes a pergunta “porquê?”, porquê sempre isto, porquê sempre a bola? E depois, depois do quanto diagonal fico, sobra a ideia de que não andamos, de todo, todos ao mesmo. Que os interesses divergem. Eu não sei o nome dos jogadores. Desconheço os treinadores. Não faço ideia de com quantos milhões se fizeram as transferências, não vibro com futebol. Vibro com as coisas que fazem sorrir as mulheres, com aquilo que as faz mais felizes, mais confiantes, vibro com o carinho, com as mãos, com o olhar genuíno. Penso e discuto as coisas que levam ao orgasmo, a forma de não existir, de ir na maré das risadas e dos corpos quentes. E talvez isso não condiga com filetes de polvo, talvez não seja coisa para a rua de Campolide, certamente não para os meus convivas naquele dia, mas tão, tão melhor que futebol. E eu a sorrir condescendente, e eles ali a falar animados da incontornável bola, e por um instante, garanto-vos, por um instante, estavam apenas eles na rua de Campolide, porque eu, eu estava longe dali.