Não faças a cama. Deixa a roupa assim, por enquanto, por agora, assim amarrotada, manchada, campo de batalha aberta, como que pestilenta aos outros narizes, mas muito nossa, do nosso cheiro. Deixa a roupa assim, não faças a cama, esquece por ora o nosso hábito das coisas em ordem, e deixa tudo assim, neste caos, neste mar de lençois mal amanhados. Porque depois eu venho, depois tu voltas, e no final destas horas voltamos ao mesmo, tu vais ficar nua, e eu nú também, talvez da roupa, mas de nós mesmos por certo, despidos, lavados na alegria do reencontro, de voar para casa para nos agarrarmos. Numa parede, num sofá, contra um vidro, na água quente de uma banheira, sobre a mesa, à janela no luar, rolar pelo chão. Não faças a cama, vamos lá lutar de novo, no fim, depois de todos os cantos e recantos, prometendo repousar para num suspiro soltarmos de novo os animais, a fúria, as bestas enjauladas que rosnam, que com garras cravam e sangram, e dizeres as tuas coisas, e eu as minhas, e no dia seguinte, nova madrugada, novamente o Sol, e a nossa cama desfeita, e nós desfeitos, mas o Sol vai erguer-se à mesma, e nós, nós vamos arrastar-nos para fora da cama, e tudo vai recomeçar. Não faças a cama. Deixa a roupa assim.