Não olhamos para dentro porque tememos perder-nos. Não olhamos para dentro porque é muito mais doloroso do que olhar para os outros, para fora, imbuídos no que julgamos ser as nossas certezas. Não olhamos para dentro porque tememos perder o controlo, tememos encontrar demasiados cinzentos a flutuar, por arrumar. Quando puxamos um, vem outro, e tardam os brancos e os pretos do tabuleiro, custa mover as peças, fazer o cheque-mate que, por fim, nos sossega. Olhar para dentro é um acto de coragem. Somos a mais dura das carapaças, temos a melhor das máscaras, ninguém se esconde tanto de nós nem nos é tão duro quanto nós mesmos. E não há ninguém que nos espete tão profundo espinho quanto nós. Olhar para dentro é duro. É labirinto. É nuvem, é ardor. Mas é necessário. Quando se sai, sai-se melhor. E eu não tenho feito senão olhar para dentro. E nem sempre gosto do que vejo. E nem sempre tenho a certeza do que vejo. Mas vou vendo, e vou puxando, e vou arrumando. Resolve-se o que pode resolver-se, fica em espera o que não é de agora, e traçamos planos, projectamo-nos para daqui a 5, a 10, a 15 anos. Imaginamos onde queremos estar, o que queremos ser, e aprendemos a ser melhores, aprendemos a perceber-nos, aprendemos a identificar aquilo em que nos minamos, em que nos travamos, em que nos fazemos os nossos piores inimigos.

Aceitamos que falhámos antes e vamos falhar mais vezes. Aceitamos a nossa imperfeição, combatemos os nossos medos, cultivamos os nossos amores. Compreendemos que o controlo é ilusório, que nem sempre sabemos se estamos a descer ou a subir na constelação do caos, mas que os minutos somam, e somos importantes, fazemos falta, somos bons em qualquer coisa. Olhar para dentro é preciso. E eu tenho olhado tanto. E às vezes encontra-se doçura, às vezes somam-se beijos e mãos, às vezes olhamos para dentro e pensamos na meta que vem veloz e desejamos o bem, queremos o melhor, e só encontramos isso, sorrisos que nos bailam cá dentro, e pintam de cor o negro dos outros momentos, das coisas tristes, de tudo o que assalta e rouba à paz. Olhar para dentro é sempre difícil, mas é preciso. Para confirmar que somos feitos de mais do que aquilo que se vê.