Com o tempo, mais me esqueço do dia. Falam-me dele como se fosse algo grandioso. Não sei sequer se é para mim que serve, ou para os outros. Há um dia do ano que escolhemos para celebrar a vida, mesmo que estejamos mortos por dentro. Ou amorfos. Ou tão vivos nesse quanto no anterior e idealmente no seguinte. Forço-me a admitir que com o tempo, com a conquista da razão e o incremento da consciência das coisas à minha volta, a data ficou sempre mais carregada de morte do que de vida. Todos os anos celebro o dia em que quase morri, em que quase matei. Ou celebram os outros, por mim, que em mim paira sempre esta sombra, esta nuvem feia.

Dá jeito. Para os passaportes, para as papeladas. E pouco mais. Prefiro tanto mais as outras formas de celebrar a vida. Acordar para um novo dia, sentir-me respirar. É celebrar vida. Quando estou bem disposto, calmo, tranquilo, estou a festejar. Quando fico de olhar incrédulo, quando me deito a olhar o céu no meio do nada, estou a celebrar a vida. Mas hoje, hoje é só mais um dia. Não marca nada. É só mais um, como eu tenho sido mais um, um João que se procura, tanto tempo sujeito à nuvem feia, talvez a tentar ser o que não é, a tentar caber na moldura que faz pior que espartilhos. Quase morri há trinta e sete, e muitos. Hoje, na curva apertada que faz os trinta e oito, sei que quero para mim a construção de um João sem moldura, sei que quero outros tantos diferentes, mas não é por ser hoje. É porque já era, e porque tem de ser.

É porque ainda tenho muito para rir, de gargalhadas que se empurram e precisam sair. É porque ainda não chorei tudo o que tinha para chorar. É porque as piadas brotam em mim todos os dias, é porque quero ver de novo a paisagem do meu Norte, porque quero acordar muitos dias ainda, sentir o corpo agitar-se, ver o Sol nascer e morrer vezes seguidas e eu à espera dele, porque tenho muito mais para escrever e dizer do que já escrevi e disse, porque estou tão longe, tão longe, de sentir que acabou, que passei a fronteira do prazo, que a minha data de validade me deixou velho.

Porque em algumas coisas fundamentais da nossa vida, ainda posso olhar para mim e dizer, “puto, como te brilha o olhar”. Tomo aspecto grisalho, no que sobra, corro menos, o fôlego vem a custo, mas o menino ainda aqui anda dentro. A querer mudar o mundo. A querer ver como se fazem as coisas por dentro. E isso é celebrar a vida. Mantém-me vivo. Ontem, e idealmente amanhã. Hoje, celebro o dia em que quase morri.