A Terra é curva, e porque assim é, não podemos desenhar, verdadeiramente, linhas rectas sobre a terra. Temos essa ilusão, apenas. Pegamos em réguas, usamos instrumentos de precisão, e ficamos felizes, convencidos de que estamos a desenhar rectas, segmentos de recta. E, afinal, estamos tão só a desenhar segmentos de uma curva, de uma curva com um raio tão grande que nos ilude o olhar e faz ver rectas onde elas não estão. Se as nossas rectas se prolongassem, curvariam. Curvariam como as linhas por onde viajamos, os caminhos por onde vamos, aqueles por onde vamos indo, como se do A ao B não existissem letras de permeio, como se não existissem outros alfabetos, como se não nos víssemos gregos entre alfas e ómegas que distendem o pequeno passo que do A leva ao B. A verdade é que nada é recto. Nada. É tudo curvo. Curvo como as linhas dos nossos corpos, curvo como o prazer, curvo como os problemas que nos atingem. É tudo curvo, como lâminas de cimitarra. Curvo como o desenho das mãos, curvo como boomerangues que se atiram ao ar, curvo como os caralhos que desaparecem dentro das curvas conas, curvo como tudo quanto se contorce, como os olhos, como as linhas que descrevem as trajectórias dos aviões quando levam gente curva lá dentro. A rectidão é um conceito. A vida é curva.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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