O João do pai distante

O meu pai, distante, fechava-se muito ao jantar. Dia após dia. Sentado à mesa, de mãos na cara. Eu olhava aquilo, na minha infância, e sentia-me culpado. Razões para isso, creio que nenhumas. Mas sentia em mim uma parte da culpa, como se o meu distante pai, ali sentado à minha frente, estivesse de rosto escondido num qualquer sofrimento. Hoje, o João adulto, sabe que os pais fazem isso de quando em vez por muitas razões. Porque estão cansados, porque o dia foi difícil, porque pode ser um reflexo físico de um momento de reflexão. Também eu, por vezes, tiro os óculos que me enfeitam e tapo os olhos com as mãos. Mas depois lembro-me. Lembro-me de como era ver o meu pai fazer isso e recuo, destapo a cara, adopto outra postura qualquer. O meu pai, distante, fechava-se muito em casa. Não era expansivo, não era comunicativo, era de uma austeridade silenciosa. E eu sentia, muitas vezes, parte da culpa disso nos meus ombros. Nunca tive o pai tu, foi sempre o pai você. A espaços. A medo.

O meu pai, distante, é agora um homem no final da vida. Consumido, talvez, pelos seus receios e remorsos. O João pequeno, de outrora, é agora um pai. Também um pai, não apenas um pai. O João pequeno é agora um homem. E o João homem sabe porque é que os homens às vezes tapam o rosto, e se fecham, desaparecem do mundo por uns momentos. Sabe que as razões são tantas, são muitas, mas que os pequenos que se sentam à mesa com os homens de cara tapada não têm culpa nenhuma aos ombros, os ombros são sempre dos adultos, e as responsabilidades são as coisas que carregam nos bolsos. O meu pai distante amava-me, como eu o amo, o homem João de hoje, ama-o como ele a mim, e nenhuma cara tapada, nenhum silêncio austero mudava isso. Era só falta de jeito. Dele. Minha.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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