O João do golo solitário

A dado momento, dei por mim cara a cara, isolado, com o guarda-redes. Chamava-se Pimenta. O campo na escola era de terra batida, e eu que sempre tinha, até ali, feito o meu melhor para nunca estar onde a bola estava, vi-me com a dita nos pés. Vendo bem, exigia de mim uma excelente leitura do jogo. Especializei-me em nunca estar onde a bola estaria, e raramente falhava. Já escrevi antes como, naqueles idos de 80 e desde então, os desportos colectivos não eram o meu domínio (com a tal excepção ao volleyball e ao pouco atletismo que se fazia na escola). Eu era – e sou – pouco apto em coisas como futebol, andebol ou basket. A educação física, na escola, foi um suplício. Eram momentos de vulnerabilidade, onde o bom aluno, das boas notas nas outras disciplinas, podia finalmente ser criticado pelos colegas que tinham más notas, mas eram bons desportistas. Não me arrependo de nada, não queria ser como eles, valeu sempre para mim o intelecto e não o físico. Gozaram-me no campo de futebol e hoje montam ar condicionado em edifícios. Eu não acertava uma no campo de jogos, mas hoje faço coisas diferentes deles. Não somos todos iguais. Não estamos todos guardados para o mesmo. Fazemos todos falta, uns aqui, outros ali. Eu não sei montar ar condicionado. Preciso deles. Mas estou bem onde estou.

É duro ser intelectual quando se é jovem. Possivelmente, sempre. Mas quando se é jovem é muito duro. Porque é um lugar sozinho. Somos, normalmente, nós e o nosso eco. E a nossa sombra. Cresci numa espécie de isolamento, rodeado de meninos e meninas que não queriam saber exactamente das mesmas coisas que eu. Os pontos de contacto, que sempre existiam, não eram suficientes para atenuar a sensação de diferença e isolamento. Eles estavam ali, e eu acolá. Eles viam o grão de areia, e eu via a praia completa. Não havia como evitar. Era assim, e nada a fazer.

A dado momento, dei por mim com a bola no pé, e o guarda-redes sozinho, o Pimenta, na contingência de defender um remate meu. Na cabeça dele, aposto, não havia o que temer. À frente dele, afinal, estava o desajeitado João que com sorte remataria frouxo, ao lado, muito alto, ou até quem sabe pontapearia no vazio falhando a bola. Tudo seria possível excepto marcar, de facto, um golo. O João não marcava golos, ponto. Ninguém reparou, mas o mundo parou por um instante. Se pudessem viver aquela cena como eu a vivi, teriam visto eu e o Pimenta, a olhar um para o outro, e todos os outros jogadores perfeitamente estáticos, congelados no tempo, apenas eu, o guarda-redes e a bola se podiam mexer. Olhei o Pimenta nos olhos, e sem dar a entender para onde ia rematar, fiz-me à bola. E ele não a apanhou. Não a conseguiu defender. O João marcou um golo a favor da sua equipa. O azelha marcou um golo. E todos descongelaram, o mundo saiu de pause e os meus colegas de equipa correram para mim, e eu corri pelo campo invadido por uma sensação que não consigo transformar em palavras. Chorei quando marquei aquele golo. O João chorou quando marcou aquele golo. O azelha chorou quando marcou aquele golo, que não me recordo que alguma vez se tenha repetido. Foi um momento único. Não me apaixonou por aquele tipo de desporto, não me tornei diferente, mas por uma vez tinha-me superado num domínio que não era o meu, que eu não queria que fosse o meu, mas ao qual era muitas vezes forçado. Nem que fosse para fazer número. Mesmo que olhado com desdém. Que ninguém contasse comigo. Era só fazer número. Para que não jogassem 11 contra 10. Naquele dia, naquela tarde, tinha sido diferente. A vitória era minha. E o capitão da equipa correu para mim, e disse “chora puto, chora”, e ninguém gozou o puto, não houve zombaria porque o puto chorara após marcar um golo. De algum modo, que para mim permanece misterioso, foi como se percebessem o significado daquele momento. Ou então, talvez fosse apenas o sinal de que todos, em alguma coisa, são azelhas. Se eu chorava goleando, talvez outros chorassem com uma nota acima de 50%.

Podes chorar puto. Eu deixo. Não te considero menos. Não és menos homem, entendes? Não és mais fraco. Podes chorar quando quiseres, quando precisares. Não precisas guardar tudo dentro de ti. Mesmo as rochas que se elevam ao mar e dão segurança a quem as pisa, ficam molhadas quando a maré rebenta. Podes chorar puto. Mas melhor que isso, percebe em ti o valor do que fizeste. És capaz. Foste capaz naquele dia, frente ao guarda-redes, e serás capaz sempre. Excede-te, supera-te, mas não me contamines puto. Não me faças ler jogos para estar onde a bola não está. Esse teu campo de jogos, fica contigo, no tempo dele, de há todos esses anos. Não mo tragas agora. Não o quero. Eu deixei-te nessa escola, para aí ficares. Não somos mais o mesmo João.

 

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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