O João do Nelo e do Ruca

Ao lado da minha escola preparatória existia um bairro, há muito demolido, com barracas e famílias problemáticas. Uma dessas famílias tinha, que eu saiba e me lembre, dois irmãos. O Ruca, mais velho, e o Nelo, que seria talvez da nossa idade, ou, porventura, mais velho um ou dois anos. Não acredito que a diferença de idade fosse muita, e no corpo também pouco se notava. Teria alguns centímetros a mais que nós, e um mundo de diferenças. Umas visíveis, outras não, parte apenas das histórias de vida dele, e das nossas.

Na minha escola preparatória, o Nelo semeava o terror, era um rufia, um bully. Nunca lhe vi armas. Nunca vi uma faca, sequer um canivete, muito menos uma fusca. O Nelo apanhava grupinhos de estudantes da minha escola e ficava com o dinheiro e outros pertences aos quais se afeiçoasse. Cheguei a ver-me assaltado pelo Nelo estando eu num grupo de quatro ou cinco colegas de turma. Como seria isso possível? Como poderia o Nelo roubar as coisas em inferioridade numérica? Porque raio não lhe saltavam em cima e o mandavam de volta a casa com alguma coisa partida? O poder do Nelo era a linguagem, a violência física e o possível mito do Ruca. Possível mito porque eu nunca vi o Ruca, e não me lembro de alguém, da minha turma, que o tivesse visto. Havia apenas e só a conversa de alguém, que era colega de outro alguém, que o havia visto. Mas nunca na primeira pessoa. O Ruca era aquela figura que temíamos que, alertado pelo irmão mais novo, nos viesse fazer uma espera à porta da escola. Talvez não existisse Ruca. O resto era o Nelo. Era a linguagem rude, intimidando pelas palavras e pela violência dos empurrões e dos calduços. E era assim que o Nelo, o rufia, assaltava os alunos daquela escola, mesmo em inferioridade numérica. Blindado pelo medo que todos tinham de que aquele confronto imediato escalasse para um outro, com um Ruca, com o resto do bairro que existia ali ao lado. Hoje, pensando nisso, fico siderado pela facilidade com que o Nelo fazia o que fazia, mas ao mesmo tempo compreendo como alguns exercícios de poder continuam a fazer-se na vida adulta.

A mim, o Nelo subtraiu algum dinheiro. Não muito, porque a certo momento desenvolvemos truques para o evitar, e tentou ficar com alguns pertences. Evitei-o, na altura, recorrendo a uma mentira que viria a salvaguardar-me das suas investidas, embora nunca deixasse que eu me afastasse dali enquanto assaltava os meus outros colegas. E eu assistia àquilo com uma raiva contida, raiva e incredulidade. A raiva de me sentir refém de um receio – que só hoje entendo infundado – e a incredulidade de como àquele rapaz era permitido fazer o que fazia. Sem meios efectivos de impor a sua força, e sem ser desancado em sessões de porrada pelos grupos mais numerosos que ele assaltava.

Entra em cena a compulsão a repetir Freudiana, e talvez as figuras que hoje geram em mim a mesma raiva e incredulidade sejam apenas novos Nelos e novos Rucas. E talvez o poder dessas figuras seja, em muito, putativo. Já não será caso – embora apeteça – de lhes saltar em cima para sessões de porrada, mas é caso para entender que o poder que exibem é consentido, tem pouco de efectivo, e que não vale a pena temer Rucas que podem nem existir. Pode ser tempo de dizer ao João do Nelo e do Ruca que o tempo dele ficou lá atrás, e que entretanto, à medida que outros Nelos e outros Rucas desfilaram na vida, o João já não precisa ficar preso na raiva e na incredulidade. O tempo desse João ficou algures entre 1986 e 1988. O João de 2014 tem outros instrumentos, outras capacidades, aprendizagens que permitem actuar e dizer ao João de 1986 que dê um passo ao lado, que isto agora é para mim.

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