Anseio por quem me perceba. Só quero que me percebam. Que entrem na minha cabeça a meu convite e vejam o que eu vejo, sem precisar explicar. O João, desde cedo, desistiu de fazer léguas para explicar coisas. Quando chega o momento de contar alguma coisa a alguém, penso no longo caminho, penso em como preciso começar a contar a história desde os primórdios da civilização para, algum tempo depois, fazer com que do outro lado percebam exactamente aquilo que estou a pensar, e o que estou a sentir. E normalmente desisto. Mais, normalmente não começo sequer. Fica a frustração. Hoje, como sempre desde que me lembro. Eu sei que não sou a pessoa mais inteligente do mundo, não estou lá no topo a olhar todos cá em baixo. E se, porventura, não o soubesse, teria as probabilidades contra mim, e seria forçado a entender, a aceitar, que não sou o único que sente isto, que não sou o único que tem este problema. Mas não sendo o único, nem o melhor, tenho um problema, o de raras vezes me ter sentido no mesmo degrau onde todos os outros estão.

Eu sou o João que numa escola de activistas de esquerda, andrajosos, ia para as reuniões gerais de alunos com gravata, presidir à mesa. Sou o João que enquanto todos iam com os seus pais assistir aos jogos de futebol, ia à Gulbenkian assistir às temporadas de ballet contemporâneo e sonhava com grandes coisas e com estética sublime, naquele Grande Auditório. Sou o João que correu museus, que leu livros, que escreveu coisas. Este é o João que dedicou o seu crescimento ao intelecto, que assustou a sua irmã que por muito tempo achava que o João não tinha os ombros suficientemente largos, que tardava em fazer-se homem, que não tinha aptidão nenhuma para desportos – excepto, a espaços, algum volleyball ou atletismo, pasmem-se, eu corria desalmado -, este é o João que algumas vezes apanhou calduços de um rufia da rua sem ripostar, até ao dia em que se fartou, rebentou a fúria dentro dele, e numa perseguição até às escadas do prédio, empurrou o rufia escada abaixo. Recordo o olhar desse rapazito, a olhar-me ao fundo dos degraus, assustado. E nunca mais se meteu comigo.

O meu degrau não é o degrau de toda a gente. Isto soa mal, mas não me sinto bem se não o disser. O meu degrau é outro. Estou noutro sítio. Estou sozinho. O que tudo isto produz é isolamento, e o isolamento é sofrido. É sofrido ter de ir aos primórdios para explicar tudo, é penoso ter de traçar intrincados esquemas em papel para me acompanharem o raciocínio, é para lá de fodido ser capaz de ver o aqui e o depois do aqui, depois do agora. Hoje, para sossego da minha irmã, tenho os ombros largos. E o karaté ensinou-me outras maneiras de atirar rufias escada abaixo. Mas continuo isolado, a querer ser entendido. Alguém que me perceba. Alguém que me segure o rosto entre as mãos e me olhe, capaz de ler tudo, sem eu precisar dizer. Alguém que esteja no meu degrau. E eu continuo a gritar mudo, burros, como não conseguem ver, incrédulo com a necessidade de explicar, sempre à espera que o mundo levante a porra do pé e suba o degrau. Não pode ser assim tão difícil. Não posso ser assim tão único. Não sou. A probabilidade está contra mim. Se eu estou aqui, o mundo pode estar também. Porque não está?