Quando eu tinha seis ou sete anos, não sei precisar nem sequer é muito relevante, fui com o meu pai a casa de um primo. Era Verão e eu estava sozinho de férias com ele durante alguns dias. Esse primo tinha uma filha. Lembro-me do cabelo loiro. E de um vestido rosa. Creio ser tudo quanto me recordo dela. Quando eu tinha seis ou sete anos, eu já sabia onde ficavam as principais ruas de Lisboa. Já tinha visitado muitos museus, sabia os números dos autocarros da capital. Já alguns anos antes, com pouco mais de quatro anos, conta-me a minha mãe, eu havia deixado uma carruagem do comboio da linha de Sintra – daquelas antigas carruagens de chapa quinada, as UTE, Unidades Triplas Eléctricas (não resisto ao detalhe) – silenciosa, a escutar-me, porque do alto dos meus quatro anos falava sem vergonha sobre o sistema solar. E a minha mãe mais envergonhada que eu, talvez, que o filho não se calava com os astros e tudo o que orbita à volta do Sol. E, já na escola primária, repetia a façanha. Era um miúdo diferente dos outros. Não queria saber grande coisa dos guelas e abafadores, tinha um interesse muito relativo pelas corridas de caricas, interessava-me muito, é certo, pelo que escondiam as saias das meninas, mas em muito do resto que fazia o quotidiano dos meninos daquela idade, eu estava desinteressado. O meu mundo eram os astros, as coisas à volta do Sol, e o interior das coisas, a curiosidade pela ciência, o que fazia as coisas funcionar.

Terá sido assim que, com o tempo, se espalhou a ideia de que o João era muito inteligente. Sabia mais que os outros meninos, notava-se que tinha tido uma educação diferente. À minha mãe perguntavam muitas vezes se era professora. Não, que não era, e o espanto nas caras, que só podia ser, que o seu menino é tão inteligente. E o meu pai, o meu pai, figura de afectos distantes, propalava, lá na aldeia, que o seu João era capaz de construir qualquer puzzle em menos de 10 minutos. E eu lá fui, tinha seis ou sete anos, à casa do meu primo, naquele dia de férias, para construir um puzzle com a outra menina. Eu, o João dos puzzles em 10 minutos. E apareceu um puzzle imenso, de mil peças pequeninas. E o João correu, manuseou as peças todas o mais depressa que pôde. E passaram dez minutos. Passaram várias vezes dez minutos e o puzzle nunca se completou. No final da conversa dos adultos, lembro-me de abraçar o meu pai, o meu pai de afectos distantes, e o João sentia dentro dele uma tristeza. Na altura, não sabia o que era.

Se hoje escrevo assim, se tiro isto dentro de mim e o atiro cá para fora, é para exorcizar o João dos puzzles. É para te dizer, rapazinho, que o teu pai não deixou de te amar por não teres feito o puzzle. Que não deixaste de ser inteligente por causa disso. Não ficaste aquém das expectativas de ninguém. Aquilo era apenas um puzzle. É para te dizer, rapazinho, que está tudo bem, que eu cuido de ti agora, e que não faz mal se o teu pai nunca mais disse que farias qualquer puzzle em menos de 10 minutos.