Noite. Tinha-se abatido sobre nós, e sobre todos, há já largos minutos. E frio. Na cidade encontrámo-nos nós, junto a portentosas fachadas, e tu da forma que eu gosto. Seria escusado descrevê-lo. Na verdade, é mesmo escusado, porque sabias sempre, como sempre sabes, o que gosto de ver no corpo de uma mulher. Desta feita, com tudo no sítio, a lingerie completa sem peças em falta. Tu sabias porquê, e eu também. Na fusão com o barulho ambiente questionei, depois de te olhar, tens o remoto?, e tu tinhas. Com um trejeito da boca, de certo modo trocista, lançaste a mão à mala e dela tiraste um pequeno objecto. Sorrimos.

Na longa mesa, de alva toalha, sentaste-te tu. E eu por perto, na tua diagonal. No meu bolso o pequeno controlo remoto. E melhor que isso, na tua cona o pequeno vibrador. Bem seguro, encaixado no teu calor e devidamente travado pela tua lingerie. Sentada nada havia a temer. Mas ainda havias de levantar-te e caminhar. Talvez de pernas bambas. Se conseguisses. Apanhei-te muitas vezes distraída enquanto procuravas manter uma conversa coerente com os demais convivas. Alguns terão achado que a sua conversa era a mais interessante do mundo, porque tinhas momentos de sorrir, mas também outros em que os talheres que tentavas manusear se cruzavam com estrépito, ou massacravam a comida, como se fosse ela a culpada de eu pressionar, de quando em vez e sem aviso, os botões que te faziam vibrar. Por mais que uma vez, olhei-te provocador e a seguir deste pequenos saltos na cadeira. Por mais que uma vez, senti a mesa tremer, quando os teus pés descalços (tiveras a prudência de deixar os saltos perto, mas desligados do teu corpo) lhe batiam. Imaginei-te a querer sair dali, desesperadamente. Os nossos olhares foram muitas vezes assim. Vamos embora daqui, por favor. Depressa. Quero ir embora contigo. Já. E eu de remoto na mão, e tu de vibrador na cona.

E a tua tortura não era maior que a minha. Era diferente. Eras tu no precipício do orgasmo, e eu a ler-te todos os movimentos, a tentar fazer-te caminhar entre a segurança e a queda, e torturado de tesão, de quem só queria arrebatar-te dali para fora e consumir-te num corpo agarrado com fome e roupas rasgadas. E quando dali finalmente nos subtraímos, preparámo-nos para fechar a noite, subindo a rua calmamente, ardendo por dentro, o teu braço dado no meu e os teus saltos navegando as pedras escorregadias e molhadas. Menos molhadas que tu, tristemente escorregadias comparadas com o teu corpo quente. E num ponto mais escuro da cidade, pediste-me emprestado o sobretudo que colocaste sobre os ombros, cobrindo-te um pouco abaixo dos joelhos, disseste espera um pouco, e com uma agilidade invejável, num movimento contínuo, ultrapassaste a saia e a lingerie, e retiraste o pequeno vibrador que te havia torturado toda a noite. Deste-mo para a mão e sabias o que eu ia fazer. Só podias saber o que eu ia fazer. Segurei-o com cuidado, que me deslizava nos dedos, e lambi-o, sôfrego, e disse que sabes bemsabes sempre tão bem.