Não sou estranho à mágoa que se desenha nos olhares. Já a vi. Há gente que a tem, umas vezes profunda, outras escondida, até mesmo molhada, da que escorre, que pinga, que brilha. Há momentos em que as pessoas sofrem escondidas com coisas que não as fazem sentir bem. Coisas reais, das muito reais, reais, ou menos reais, mas reais nonetheless, sempre muito reais, que centrifugam e assustam, que fazem temer, que enchem de medo. O medo nosso e o medo nos outros. E quando a mágoa se desenha nos olhares, eu quero ser borracha, na esperança de que seja desenho a lápis. Quando, num momento, sinto uma coisa que às vezes me acontece, e que também me centrifuga, que também me assusta, desenha-se-me a mágoa, da que escorre com a memória, e ecoam na minha mente duas palavras. Damaged Goods. É o que parece, que somos damaged goods quando se nos desenha a mágoa daquilo que nos rouba à sensação da normalidade que toda a gente parece ter. E escondemo-nos, reservamos para nós o desenho das coisas más, e esquecemo-nos que todos o fazem, que nos cruzamos nas ruas com damaged goods sem fim, e que somos afinal tão normais na nossa anormalidade. Nunca menos que os outros. Apenas nós. Com o que temos, que é tanto. E que é muito real, sempre.