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Conheço pouca gente que se diga bem. Que se sinta bem e o declare. Com algum esforço e boa vontade talvez consiga atirar para o ar dois nomes de pessoas que me parecem bem, que não ouço reclamar, que se apresentam satisfeitos. Mas são uma minoria que quase não tinge as filas de gente que conheço – e onde me incluo – que não estão bem. É o carro que não pega ou o vizinho de quem não se gosta, os amores que vão tortos ou tardam ou falham, os filhos que berram, partem ou cagam, as profissões que fedem, as roupas apertadas, o dente que dói, os amigos que desiludem, tudo e qualquer coisa serve. Algumas são coisas que nos parecem menores, mas não devemos pensar assim. Se são menores para nós, são as mais importantes para essas pessoas, à escala das suas vidas. E todos temos rodas dentadas em torno dos nossos umbigos, cujos dentes se encaixam nas pessoas que nos rodeiam, e temos sempre muita pressa em ver a nossa roda dentada revolucionar-se, mas isso só se faz ao ritmo das outras. Interligados como estamos, os nossos umbigos – e isto nada tem a ver com egocentrismo  – só são eixo na medida em que o mundo cria espaços por onde tudo flui, como a areia entre os dedos, ou a água nas paredes. Como nas sardinhas em lata, como nos comboios apertados de gente, o jeitinho que se vai dando aqui e ali, cria espaços para outros jeitinhos, e de jeitinho em jeitinho as rodas vão rodando. É lento. Sabe a pouco. Conheço pouca gente que se diga bem. Mas conheço muita gente que tem muita, muita pressa.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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