Quem conhece organizações com alguma dimensão está, certamente, habituado às movimentações de recursos humanos. Gente que sai e gente que entra, e se quando entra nada diz, quando sai, a gente que sai gosta de mandar e-mails de despedida. A arte e o engenho são variáveis, mas as ideias-chave não fogem muito a qualquer coisa como:

Caros colegas,
Ao longo destes anos em que tive a oportunidade de trabalhar convosco, vivi momentos muito bons, e outros menos bons, aprendi, ganhei amigos, enriqueci o meu percurso profissional. A todos vós agradeço pelos bons momentos que me proporcionaram e pelas condições que me ofereceram para servir esta causa. Neste momento em que abraço um novo desafio, não quero deixar de a todos cumprimentar, e dizer que estarei disponível, sempre, para o que vos deixo os meus contactos pessoais.

Ora bem, isto é a abordagem politicamente correcta. A que as pessoas gostam de ter, até porque temem fechar portas. Procuram sempre despedir-se com alguma cordialidade e a dose certa de mentiras na perspectiva de não criar inimigos (o que é curioso, porque provavelmente os inimigos que interessam já estão criados). Na verdade, e considerando que em muitas movimentações de recursos humanos os motivos são pouco claros, o que a pessoa que se quer despedir quer efectivamente escrever é:

Meus grandes cabrões,
Ao longo destes anos dei o couro e o cabelo por vocês e por toda esta merda. Vivi aqui momentos que não lembram a ninguém, esfalfei-me todo, e não ganhei nada com isso. Quero que vão todos levar no cú pelas dificuldades, intrigas e pequenez das vossas cabeças de cagalhão. Neste momento em que levo um chuto no cú, não quero deixar de vos dizer que vão bardamerda e que os próximos são vocês. Não me telefonem, vão-se foder!

Houve momentos em que pensei que fazer algo assim era de ter tomates. Depois percebi que não é questão de tomates. Eu não sou politicamente correcto e tenho tomates mais que suficientes para escrever algo assim. Na verdade, eu, minhoto e capaz de conjugar na segunda pessoa do plural, preferia enviar um e-mail de despedida com uma única linha:

Fodei-vos!

Mas, lá está, isto não é uma questão de tomates. É uma questão de dinheiro. Quem tenha dinheiro que o torne independente, podendo viver tranquilamente sem precisar pensar na conta bancária, pode fazer isto. A todos os outros, só com uma razoável dose de loucura. Ora, dinheiro não tenho, e a loucura está orientada para outros domínios. No dia em que precisar despedir-me, não me despeço. Não envio e-mail nenhum. Mas às vezes sonho acordado com a ideia de me sair um prémio que permita alugar um avião daqueles que sobrevoam as praias, com uma tarja a dizer o tal fodei-vos. Contratava-o para sobrevoar esta chafarica durante pelo menos 15 minutos, um fodei-vos aéreo, e eu a rir. Ah, como seria divertido…

 

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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