A minha vida é uma roda de bicicleta. Eu sou o pipo. Ora encho, ora esvazio. Se escolho a bicicleta, em detrimento das rodas dos automóveis ou mesmo das motas, é porque a de bicicleta é de uma complexidade aparentemente menor. Mas está lá tudo. Quando pensamos nos pipos das rodas das bicicletas, e quando nos assumimos pipos, entendemos que estamos pouco tempo no topo, no ápice, mas que se assim é, também é verdade que estamos pouco tempo na fossa, lá em baixo, onde o Sol tem preguiça. Quando nos percebemos pipos, compreendemos que a maior parte da nossa vida se passa ora a subir, ora a descer. Na prática, o que varia, é a velocidade a que circulamos. Podemos subir ou descer mais devagar, podemos ter mais ou menos tempo lá em cima ou cá em baixo, mas olhando ao formato da coisa, e sabendo que o pedal nunca pára, onde mais tempo se passa é em trânsito. A caminho.

Isto faz muito sentido para mim, hoje. Porque hoje não comemoro, mas assinalo, a passagem de um ano, penosos 365 dias, numa espécie de buraco, um dos tais sítios onde o Sol tem preguiça. Não pedalei o suficiente, ainda, para me distanciar e saber se todo este ano foi buraco, ou se foi já trânsito para subir. Tal como não posso saber, ainda, se este foi realmente o buraco ou se estou ainda na descida, a caminho de algo comparativamente pior. Só sei o que tenho sentido, aqui onde estou, e sei que sou um pipo numa roda, que estou a rodar para algures. Para cima ou para baixo, verei em breve.

Suponho que uma das razões para não gostarmos dos buracos, além de todos os desconfortos e racionais muito nossos, é sermos animais que procuram aprovação. Somos julgados a todos os instantes por muita gente, muita da qual daqui a poucos minutos já nem se lembra de nós. E, ainda assim, aborrece-nos que nos julguem. Queremos ser amados e acarinhados, reconhecidos, por toda a gente. É parte de ser um bicho social. Mas não vale a pena. A verdade é que as pessoas se estão a foder para nós. Temos um planeta cheio de gente, e muito do que sentimos de desconforto perante situações que interpretamos como negativas, é um desconforto nosso. A pessoa do lado não quer saber. Não deixa de dormir por causa disso. Amanhã já não se lembra. Porque tem a sua própria roda. É, ela própria, um pipo. Que ora enche, ora esvazia, e tem os seus próprios medos, e também ela, enquanto julga os outros, teme o julgamento que fazem de si.

Já estive em buracos, antes. Já fui muito julgado. E pequei na mesma medida, porque também já julguei muito. E já estive lá em cima. Já enchi, e depois esvaziei. A vantagem que se tira disto, é estofo. Calo. Experiência. Espero viver o suficiente para conhecer muitos topos e muitos valeiros encaixados, e o que levo comigo é o conhecimento, é saber que quando voltar a subir, terei de preparar a descida. E que quando estiver a descer, descerei já sabendo o que me espera. Melhor preparado. Isso reduz a dor. E o tempo que leva até subirmos de novo.

E não precisamos temer julgamentos, censuras, o fácil desdenhar. Nem toda a gente gosta de nós. Nem precisam. Nós não precisamos gostar de toda a gente. E não acontece absolutamente nada quando isso acontece. Nada se parte. Nada fica parado. As rodas de bicicleta continuam a rodar. Retomo a ideia que me levou a escrever. Estar há um ano num degredo. Faz parte da roda, é só isso. A minha começou a rodar para descer quando outras subiam. Mas como todas rodam…

p.s. Sendo certo que nem toda a gente gosta de nós, ou nós de todos, há sempre gente que sente as nossas rodas quando elas rodam na descida. Há sempre gente que tenta apertar o travão. Essa gente nunca se esquece, e merece sempre um cantinho connosco. Afinal, é essa gente que importa.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

2 Comments

  1. Sinto-me assim… um pipo de uma roda. Uns dia a subir, feliz e o coração não me cabe no peito, noutros, triste, cheia de sentimentos de culpa das minhas reacções e decisões, e repleta de medos. A única coisa que sei é que a vida não pára… não quer saber… cada dia é mais um dia a somar aos outros.

    Desejo-te toda a sorte do mundo. Que a subida comece rapidamente.. gosto de te saber feliz.

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