The show must go on

Quando o pano caiu, caiu com estouro, ao som de petardos. Não deslizou em calhas, não cobriu o palco devagar como um separador de actos. A plateia estava já vazia, apenas o actor solitário permanecia ao centro, com um holofote fraco apontado ao seu nariz de palhaço. Os cabides estavam despidos, não existia guarda-roupa, o fosso da orquestra era apenas fosso, e as portas não tinham quem entrasse, haviam servido apenas de saída. E o pano, quando caiu, caiu-lhe na cabeça. Ficou confuso, contuso, sem tusa. Mas depois do pó assentar, depois do pano parar de se agitar, sentado já no chão e de pés bambos junto ao fosso da orquestra onde outrora rufos e silvos se faziam melodia, suspirou e exclamou, em todo o esplendor acústico, que percebia. Que havia lido as linhas, as entrelinhas, e todas as curvas. Era preciso. Era recomendável. Era inteligente. Conhecia demasiado bem o argumentista. Não havia como odiar o guião, não havia como dizer-se surpreso, e muito menos irado. Sabia o que aqueles diálogos eram e porque eram. Sabia o que diziam e o que queriam dizer. Era só a arte do palco, de acto em acto, de plateia em plateia, comédia ou tragédia seria difícil dizer, mas era Grega por certo. E enquanto, ali sentado com o pano sobre as costas, recitava as linhas que sabia de cor, pensava que nem tudo o que parece é, que os teatros e os panos, e os fossos vazios, escondem o calor das linhas quentes, das máscaras e espinhos, das plateias ardentes, de pensamentos crepitantes. Isto é o que vejo, não é o que é. Mas o espectáculo, esse continua sempre.

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