Não adormeças antes de mim. Foi uma ordem dada com suavidade, e perdoa-me, que tombei primeiro. Nas milhentas horas dormidas em conjunto, foram muitas aquelas em que me levaste à exaustão. Creio que preferias adormecer primeiro, comigo a observar-te, porque te querias sentir cuidada, acompanhada, que alguém vigiava o espaço à tua volta e impedia os monstros de sair debaixo da cama ou de dentro dos armários. Mas perdoa-me, porque tombei. Adormeci antes de ti. Deixei-me aconchegar no teu calor, na tua pele, e o corpo deslizou, cerraram-se as pálpebras, e não vi se os monstros queriam sair, ou se as portas dos armários rangiam.

Mas o que não sabes, é que nas nossas milhentas noites, mesmo naquelas em que adormeci antes de ti, acordei depois, durante a noite, e fiquei a olhar-te no silêncio. Por vezes nem me mexia, para não te acordar, para não tirar o teu corpo de cima do meu, e já habituado à escuridão, via a tua silhueta repousando ao lado da minha, cheirava-te, afundava-me em ti enquanto tu dormias. Isso não podias saber. Enquanto dormias, não podias saber que eu, muitas, muitas vezes, estava vigilante, e nunca vi monstros, nem ouvi as portas dos armários ranger. Era só a noite, connosco lá dentro.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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