Balanços

Balanços. Haja paciência. Que seria de nós se fizéssemos balanços quando muda a unidade no conta quilómetros, na conta bancária, no ponteiro dos segundos. Mas decidimos fazer, todos ou quase todos, balanços quando muda o ano. Dá mais jeito, sempre se faz menos vezes, e dá a ilusão de que o calendário é extenso e vamos fazer nos doze meses seguintes tudo aquilo que preterimos em toda a vida que está para trás.

Li coisas de amigos, conhecidos, desconhecidos e quejandos  a fazer os seus próprios balanços. Mais ou menos floreados. Mais ou menos felizes. Mas todos ou quase todos chapa cinco. Tenho uma notícia para vos dar. O ano que findou, em jeito de balanço, teve para vós, como para mim, trinta e um milhões, quinhentos e trinta e seis mil segundos; quinhentos e vinte e cinco mil e quinhentos minutos ou, se preferirdes, oito mil, setecentas e sessenta horas. Dispenso-me referir o número de dias, mas sabeis que não foi bissexto, certo? E é esse o verdadeiro balanço do ano. Tudo o resto é o balanço das vossas vidas (e da minha). Não se compartimenta, não muda com os foguetes do novo ano (excepto se nascermos ou morrermos nesse momento, óbvio), é um contínuo. O que estava por resolver ontem, está por resolver hoje. A merda de ontem, cheira mal ontem como hoje. E os planos não são a doze meses, são para o tempo que vem a seguir, todo ele, e podem fazer-se hoje, ou depois de amanhã. E não há uvas-passas nem champagne que façam por vós ou por mim o que haja ou se queira fazer. O novo ano não marca nada em si mesmo. O nosso período de retorno é mais longo, e os anos que o calendário marca são apenas e só degraus. Não façamos deles mais do que isso. E ninguém faz balanços quando sobe escadas.

Posted in Crónicas curvas

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