Não somos insubstituíveis, embora o sejamos. E nada tem isto a ver com o quanto somos ou deixamos de ser especiais – matéria em que muitos se dividem, aceitando ou refutando essa qualidade. Tem a ver com a unicidade, que nos transforma em existências que não são, de todo, replicáveis, e com a capacidade que todos temos, melhor ou pior, de preencher espaços por via da aprendizagem. E é nesse tanto que ninguém é insubstituível, embora efectivamente o seja.

E, não sendo insubstituíveis na forma senão apenas no intangível, há momentos em que deixamos para trás certos espaços e cadeiras onde fizemos história, para dar lugar a outras existências. E nem sempre essas existências revelam a mesma capacidade, nem sempre são capazes de fazer o que fizemos, de manter o nível. Há momentos em que olhamos para trás e sentimos que tudo quanto fizemos, tudo quanto nos esforçámos para construir, se vai partindo, aceleradamente. Suponho que a nossa primeira tentação seja a tristeza de pensar que todo o nosso esforço foi em vão. Que parte daquilo que nós fomos, deixou de ser. Que não são capazes de nos dar continuidade, e que com isso é também o nosso eu que sofre. A outra maneira de encarar isto é mais tranquilizadora. E talvez mais verdadeira. Pode ser a nossa apologia. Pode ser, depois do ingrato da constância, a prova de que nós somos nós. O sinal que eleva o nosso nome, que demonstra que afinal o insubstituível o é mesmo, e que muitas vezes quem vem a seguir apenas vem, mas não segue, porque não consegue.