Foi muitas vezes assim. Ele entrava porta dentro e sentava-se ao lado dela, e deslizava os dedos pelo cabelo, ou percorria-lhe as costas com as mãos, dava-lhe o braço, fazia-lhe carícias nas mãos. Às vezes pousava a mão sobre a coxa, ou sobre o joelho. Falava-lhe das coisas mundanas, mas as mundanas eram do mundo dele, e por isso eram importantes mesmo que banais, eram as coisas que faziam a colecção das suas horas. E ela calada. E depois o Sol ia embora, e vinha a noite, e o novo dia trazia outra porta que se abria e lá estava ele de novo, a entrar-lhe espaço dentro, e a dizer coisas, e a fazer-lhe carícias, e a juntar o corpo dele ao dela, e a olhá-la, e ela a ele, mas calada. E o Sol ia embora, e vinha a noite. O Sol foi-se embora muitas vezes, e a noite caiu, e caiu, e sempre fez por cair. E o novo dia trouxe-o sempre, na porta que se abria. E sentava-se ao lado dela. E falava, falava, falava. Dizia coisas. Contava coisas. Outras vezes dizia silêncios. E ela sem articular palavra. E um dia o Sol escondeu-se, a noite veio, e o novo dia também. E ele não veio, a porta não se abriu. Ficou do lado de fora, encostado, silencioso, de orelhas como os cães, atento. E ela, lá dentro, calada, parada. A olhar a porta. A boca disse vai, mas os olhos disseram fica. Os braços disseram desaparece, mas o corpo encerrado sob a pele gritava não fujas de mim.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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