Neste dia começou a mudança. Tinha começado como outros dias, numa ilusão de melhoria, de um recomeço com outra dinâmica. Sei que cheguei à minha mesa, à minha cadeira, como em tantos outros dias antes disso, mas preenchido de uma paz diferente. E o dia correu bem, e teve sorrisos, e teve cumplicidades, e teve satisfação. À tarde fui lanchar. E quando voltei fiz um desvio, fui chamado a uma sala onde me disseram que as coisas iam mudar muito em breve. Que tinham um desafio novo para mim. Um que achavam que era mesmo a minha cara. E a minha cara escondia apenas a insatisfação de não me ser conveniente virar as costas e dizer fodei-vos. Naquele momento começou a destruir-se um conjunto de coisas.

Trezentos e sessenta e cinco dias depois, mais dias do que aqueles que julgava aqui estar, posso dizer que nem tudo foi mau no novo desafio. Mas que o desafio não é a minha cara, não é. Que não me revejo em nada do que me rodeia, não revejo. E que guardo comigo um grande fodei-vos para o dia em que ele puder ser dito, guardo. Já fiz sangue, disse a pessoa para quem guardo este fodei-vos. Ironia, não é só o meu, e sobretudo não é verdadeiramente o meu que recai sobre ele. O que na altura em que o soube me pareceu um profundo mau gosto, acabou por ser uma profecia, uma estranha capacidade premonitória. Suponho que seja capaz, então, de antecipar o momento em que alguém faça sangue também com ele, não aconteça que as estrelas que ele tenha a perder sejam o dobro daquelas que me tirou.