A expectativa da mudança

Há pessoas que escrevem o número dois começando em baixo, o que lhe confere um aspecto gráfico mais austero, e outras começam-no por cima, dando-lhe um aspecto mais circular. Acontece o mesmo com o número três. Para uns, o 3 é um número que se desenha de forma muito circular, enquanto outros, no topo, em vez de arredondar o traço, fazem-no angular como um 7. São coisas que estão dentro de nós. Cresceram connosco. Fazem parte daquilo que somos.

Podemos, por situações da vida, fazer algumas coisas diferentes daquelas a que estavamos habituados. Podemos mudar de caminhos e empregos, podemos passar a cuidar da roupa, podemos levar o lixo para a rua, podemos mudar coisas que sejam rotineiras e que entendamos essenciais para a nossa sobrevivência, que nos toquem fundo. Mas o resto, aquilo que seja mais relevante para os outros e não tanto para nós, para a nossa existência, será mudado em esforço, e como tudo o que acontece em esforço, dura pouco. É como a radioactividade de um isótopo. Vai decaindo com o tempo. Se não temos alguma coisa dentro de nós quando acordamos e somos adultos, não vamos ter. Se o motor da mudança não é uma ligação forte, vai ficar sem combustível. A maneira como desenhamos os números, a forma como reparamos em algo ou nos importamos, o que fazemos que nos é intrínseco ou deixamos de fazer, é projecto fechado. Chave-na-mão.  Tudo o mais, estou em crer, é ilusão e a sucessão do Sol que tomba e se levanta, e do vento que passa.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

1 Comments

  1. Somos sempre nós. A nossa essência não muda. Podemos até querer mudar, podemos até fazer um esforço gigantesco para isso mas rapidamente aliviamos o esforço e voltamos ao mesmo registo. Por isso é que eu tenho uma certeza, as pessoas não mudam, não se muda ninguém, temos que as aceitar como são e quando não o conseguimos fazer o mais correcto é partir porque aquele alguém não nos convém.

    Como sempre tocaste no local da ferida…é uma idiotice pensar que por amor alguém muda.

    Beijinho João.

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