Saíste da banheira e caminhaste até à beira da cama onde te sentaste. Enrolada num toalhão, que deixaste abrir, ficando tu, e eu, perdidos nessa nossa nudez, o envelope das nossas cabeças. Pegaste no creme. Preparavas-te para cobrir a tua pele com ele. Que desperdício. Que te passou pela cabeça? Não! Que fazes? Não te deixei prosseguir. As minhas mãos são o outro lado da tua pele, o creme pertence-lhes. Fui cobrindo o teu corpo e, vendo bem, de mecânico tinha pouco, estava só a fazer amor contigo de uma maneira diferente. E queria fazê-lo sempre. Como um ritual, um compromisso que não se marca na agenda, que não é obrigação, é só olhar-te e dizer presente. Nem isso. É olhar-te e fazer. Entre o teu cheiro e os teus sinais. E enquanto penso nisso, sinto-me invadido por tantas coisas que não tenho letras nem discernimento, é uma bolha de tudo, que mexe com o meu sangue, mexe com os sentidos, e depois de me arrancar do chão, deixa-me cair de novo, de supetão, e ecoa nos meus ouvidos a zombaria. Mas não faz mal. Não faz mal por causa da nossa nudez, do nosso envelope, das muitas maneiras de fazermos amor.