Cai sobre mim um fumo espesso, opaco. É negro, pesado, esconde-me o Sol por completo, carrega o ar e fá-lo pestilento, esconde-me do mundo, veda-me a luz, faz-me proscrito. Este fumo negro está em tudo o que não vejo, nas coisas que não oiço, os lugares onde não estou. Este fumo negro veio carregado de portas fechadas, de dias sobre dias sem sinal, sem tacto, sem calor. Não há vozes, não há sinais de nada, um único. Não há uma mão. Um sorriso. Muito menos um abraço forte. Não há senão fumo espesso, opaco, negro, pesado. Não há nada para ver, nada para ler, nada para ouvir. O fumo é como parede fria, e os gritos são mudos porque não há eco, porque é como um telefonema para lado nenhum. E isto aperta, aperta, torce, contorce, esmaga e revolve. Agito as mãos, esforço as cordas vocais, faço sair letras dos dedos, emito em todos os sentidos, envio ideias e emoções, e vejo-as desaparecer sem retorno. Chamo todas as estações. Sem eco.