Wicked. Sei que a palavra se traduz em coisas que não são exactamente aquilo em que estou a pensar. Não estou a pensar em maldade, em desonestidade ou vilania. Muitas vezes recorro à palavra wicked – não raras vezes no meu silêncio – por causa do contraste entre o que parece ser aceitável e aquilo que se supõe ser moralmente incorrecto. Mas num sentido quase único: o sexual. Da piadola, do desejo férreo, da capacidade de transformar coisas banais em contextos de erotismo. Esse tipo de wicked. Em português, talvez marotice. Talvez uma forma de líbido que escorre entre os dedos e transforma tudo o que toca, ou reveste todas as ideias. Esta wickedness que tenho em mim e parece não se esgotar, é das coisas que mais contrasta em mim. Não sei se alguma vez deixarei de ser assim, mas aceito que é uma qualidade que produz paradoxo, porque se é das coisas que mais satisfação me fornece, é também das coisas que maior frustração me cria.

Esta wickedness é um exercício quase sempre solitário, uma quase masturbação mental, olhar as coisas e sentir a bola de neve crescer, a piada a surgir, o delicioso da sensação de uma gargalhada sonora misturada com a especiaria do teor erótico da coisa e depois olhar à volta e perceber que é um espaço quase desabitado, que na maior parte das vezes não tenho com quem partilhar isto, e se me sinto satisfeito enquanto sorrio comigo mesmo, deprimo-me com a vastidão do vazio. E um momento destes, se não se partilha, perde-se para sempre. E são todos únicos. Irrepetíveis.

Ainda hoje senti isso. Dei por mim num organizador de reuniões que, inocentemente, me apresentava a opção de escolher “Rooms” para essa reunião. E eu olhei para aquilo e senti a bola de neve. A piada instalou-se. E escorria sexo. Era a transformação do enfadonho em algo excitante. Mas à minha volta só o vazio. Fiquei a sorrir para dentro, a pensar “não tens juízo, João, não tens emenda…”, a pensar se algum dia deixaria de ser assim, que não quero deixar de ser assim, não quero perder esta wickedness, e ao mesmo tempo a ouvir o eco do meu riso, sem nada nem ninguém por perto que entendesse a maneira como esta cabeça funciona.

É muito difícil ser eu.