Das minhas camisas e da escolha

Quando me ponho a olhar para a minha roupa penso, muitas vezes, no Barry Schwartz. Penso em várias coisas, na verdade. Mas também penso no que o Barry Schwartz defende quando nos fala do paradoxo da escolha, e de como more is less. Ao longo dos anos fui acumulando roupa diversa, pouca comprada, muita oferecida e alguma mesmo herdada. Cheguei ao absurdo, em tempos, de contar um pouco mais de 60 camisas no guarda-roupa, muitas das quais nunca havia vestido, ou então vestia duas ou três vezes por ano. Por outro lado, fruto de boas opções, tinha (e ainda tenho, embora em franco desaparecimento) camisas que ao fim de 15 anos ainda estavam praticamente novas e suficientemente actuais. Mas, a dado instante, e por razões que me escuso referir mas muito me animaram, percebi que precisava urgentemente reduzir a roupa que tenho. E tenho vindo a fazê-lo. E tenho para mim que caminho a passos largos para uma solução um pouco mais radical do que alguma vez imaginei.

Se penso no Barry Schwartz em algumas ocasiões em que contemplo as minhas camisas – agora dobradas como nas lojas e dessa forma ocupando muito menos espaço do que penduradas em cabides – não é porque contemplar roupa me remeta para fantasias masculinas. De todo. Penso nele porque me vem à ideia uma apresentação que ele fez numa Ted Talk (o link está lá em cima) em que defendeu que o excesso de escolha nos torna frustrados e infelizes. É como eu entrar na gelataria Surf e ter uma montra de talvez 50 sabores, e sair de lá apenas com dois. E saio infeliz, porque embora acredite que os dois sabores que escolhi – a custo – me vão saber bem, fico perturbado por saber que, muito provavelmente, estou a virar costas a algum outro sabor, entre os 48 que sobram, que talvez me soubesse ainda melhor. É por isso que more is less. Quanto mais podemos escolher, mais infelizes. Quando só temos uma opção, ou duas, é fácil. É aquilo. Quando temos muitas, perdemos tempo que não precisamos perder e ficamos sempre a pensar what if?

Às vezes vemos filmes que retratam homens cujos roupeiros têm roupa toda igual (creio que o Nove Semanas e Meia foi um dos primeiros em que me recordo de ver isso) porque se vestem sempre, sempre, da mesma forma. Se isso a princípio me parecia estranho, hoje ganha um apelo que nunca teve, e começo a pensar que embora não precise ter a roupa totalmente igual para 5 dias de trabalho, posso andar muito perto disso. Hoje sei muito melhor que aspecto quero ter. Sei muito melhor que roupa me fica bem, sei que imagem quero transmitir. Sei com o que me sinto bem. E para isso não preciso de muita roupa. E não preciso de muita opção. E se fizer esta adaptação severa ao meu guarda-roupa sei que vou reduzir a frustração, vou reduzir em muito a escolha e com isso poupar tempo, e poupar trabalho, e ainda mais espaço.

Das pouco mais de 60 camisas que um dia contei, hoje vou em 40. E continuo a cortar. Talvez estabilize em torno das 20 (com factor cagaço por causa dos dias de chuva, que eu tenho essas preocupações, lavo, estendo, passo, dobro e arrumo). Talvez um pouco mais uniforme, menos díspar como outrora, mais alinhado com um estilo formal e sóbrio em que me sinto encaixar. O homem que sou está a mudar. E a roupa que envergo é apenas uma parte da mudança que sinto.

Posted in Crónicas curvas

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