Desde há vários anos que é assim. O Natal aborrece-me. Não tenho paciência para árvores nem decorações. Não tenho paciência para eventos familiares. Não tenho paciência para a correria de presentes nem para programações televisivas alusivas à quadra. Alturas há em que nem sequer para a mesa tenho paciência, e me enjoo perante mesas de fritos. Não tenho pachorra para música de Natal repetida ad nauseam. Há vários anos que não me sinto natalício. Há vários anos que me enfado com a boa disposição imposta, com o sentimento amoroso impingido, enfiado como rolha à pressão, com a compressão ou distensão do acto familiar que seria suposto unir mas por vezes separa e deprime. Há vários anos que quando Dezembro se aproxima, tudo quanto quero é que passe depressa e venha Janeiro. Janeiro é fresco. Janeiro é a primeira coisa que vem depois da saturação do Natal. Não me sinto natalício. Talvez um dia isso me passe. Talvez um dia me apeteça enviar cartões festivos, mandar mensagens, telefonar às pessoas. Talvez um dia me apeteça Natal. Mas hoje, como ontem e antes disso, nem tanto. Espero Janeiro. E entretanto, penso que talvez isto signifique, apenas, que o Natal está mal interpretado, mal vivido, mal pensado. Que talvez seja de, por uma vez que seja, aceitar que o Natal não é brilho nem bacalhau, é um momento rápido que se celebra numa noite fria e depois sobrevive no silêncio dos corações. Onde existe ruído, não cabe mais nada.

(O que não me aborrece, é a lingerie de inspiração natalícia, embora, confesse, prefira em morena, mas só encontrei em loira)