Carta aberta aos meus amigos

Não sabem? Não leram nas notícias? Temos pena. Eu tenho. Anuncio que não sou um cabrão. Talvez fosse mais fácil para mim, e para tanta gente, se eu o fosse. Para mim é fácil gerir, um cabrão nunca engana e sabe sempre ao que vai. E aos outros, facilita. O rótulo é simples, abrangente, duradouro. Mas dizer-me ou aceitar-me cabrão, para vosso gáudio, seria ser qualquer coisa que não eu. Não me revejo nesse elogio que tão gentilmente me dirigem, e por isso, lamento e entristeço-me por vossa mágoa, é petardo que não me atinge mais. Chega a mim, e tomba, cai inerte aos meus pés. Tivésseis vós, ao menos, poupado vossas carteiras. E vossas línguas, que tão nobre uso podiam ter tido a lamber selos, transformando o fel que destilam a meu propósito em rosários de amor escrito em postalinhos de quadra natalícia para os vossos conhecidos perfeitos.

Não, meus respeitáveis artistas de dissimulação, eu não sou um cabrão. Não sou o vosso cabrão. Nem tão pouco o meu, vejam bem. Tenho-me por bom homem. Recomendável até. Com alguns preceitos. Vede vós que até passo umas roupinhas, dobro umas camisas, vinco umas calças. Tenho-me por bom homem. Desculpar-me-eis, sim, por ter dentro de mim a luz e a sombra. Nisso, concedo, sou como vós. A luz e sombra de que vós sois feitos, é também a luz e sombra que eu tenho dentro dos meus botões. Temo-la todos, não é mesmo? Não há como escapar. Pronto, limpai vossas lágrimas, que disto não vos lembro mais.

Tenho-me por bom homem, dizia-vos. E talvez isso vos faça uma comichãozinha, quem sabe. Ao canto do olho – escolhei vós qual – quem sabe. A um bom homem sempre dá mais gosto atirar petardos. Assim como assim, que sozinhos estamos na lama não sentis? Há sempre espaço para mais um, e é tão mais fácil puxar um bom homem à lama do cabrão do que sacudir a nossa que nos aquece e faz tão bem à pele. Na lama estamos todos quentinhos, aquecidos – nas orelhinhas – pelas opiniõezinhas que temos e que dizemos com falinha mansa, assim como quem não quer mal, assim como quem tem superioridade moral porque nunca jamais fez ou faria tal coisa, e se está na lama não é porque seja igual ou pior a quem critica, é só porque, infortúnio, escorregou que os sapatos eram novos e a calçada muito polida. Pois.

Mas eu não sou um cabrão. E não preciso de vós assim como vós, bem me quer parecer, não precisais de mim. Quando respiro entre a minha luz e a minha sombra, respiro como posso e como sei. Trilho os caminhos que consigo e aqueles que vou abrindo. Fazei vós também isso, e fazei-o lá convosco, e fazei-o, assim vos desejo, procurando todo o amor que a vida vos possa dar, como eu procuro. Mas para amigos e conhecidos como vós, devo dizer-vos, tenho pouco uso. Ide, ide sem cerimónias, não vos levo a mal e até vos dou um mapa. Quem eu amo, quem me ama, quero perto. Quero comigo as pessoas que vivem a vida comigo por perto. Não interessa que amor é, se é amizade ou vontade de me comer até aos ossos. Se me amais, vinde. Dai-me a mão, o braço, o corpo todo se caso disso for, e vamos. Façam-mo saber, digam-me que me querem assim, que me aceitam como este homem bom, com luz e sombra, e vamos ver o que a vida nos mostra. Se não me amais, se não me aceitais e ainda por cima me julgais pelo que não sou, um abraço e um queijo, cumprimentos aos de casa, e tudo de bom, lá longe, onde quiserdes.

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