Quatro estrelas ou mais

Gosto de quartos de hotel. Sei que são despidos de alma, mas não são despidos de personalidade, e a alma, trazemo-la nós quando os preenchemos. Gosto da frescura dos quartos de hotel, das bolhas que representam dentro das vidas, como um alheamento, como se para lá da porta do quarto estivessem todas as coisas que temos, e da porta para dentro um vazio novo, pronto a preencher com o que queiramos. Gosto da simplicidade da existência dentro dos quartos de hotel, da ausência do acessório, na presença do essencial. Da facilidade em arrumar, de condensar a nossa existência a meia dúzia de coisas que podemos transportar depressa, enfiar numa mala pequena, e partir.

Gosto da mente traquina de quem desenha quartos de hotel – os de qualidade – e deixa vidraças entre a banheira e a cama, disfarçando a ideia sob o pretexto da luz solar quando na verdade estão a pensar em provocações, em corpos que a elas se encostam ou mãos que ensaboam corpos para quem se deixa ficar preguiçoso, a olhar da cama. Como convite para vir depressa, que só para um é desperdício. Gosto dos corredores longos nos hotéis que os têm, daquele caminhar em direcção ao quarto que se faz na antecipação de desfazer camas com fulgor, ou no desejo de enrroscar e dormir, pacificamente. Gosto de hotéis minimalistas, sem decorações pesadas que fazem atrito às nossas almas e estragam o nosso espaço, poluindo as nossas fantasias.

O facto é que gosto mesmo muito de quartos de hotel (de quatro estrelas para cima).

Posted in Crónicas curvas

2 thoughts on “Quatro estrelas ou mais

  1. Adoro quartos de hotel. Chegar e partir. Adoro sentir-me livre dentro das paredes de um quarto que não é a minha casa. Sem amarras, sem obrigações, sem nada que me prenda ali, com pouca bagagem e só o essencial aos meus olhos…

    Beijinho João.
    Tenho tido muito pouco tempo para regressar a esta casa que adoro.

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