Chega um momento, na tua vida, em que percebes que toda a gente tem opiniões sobre ti. Não é coisa que te confira direito à surpresa, porque tu também tens opiniões sobre os outros, tu também as propalaste. Chega o momento em que compreendes que entre as pessoas que te rodeiam, mesmo entre aquelas que julgas bem, que pensas poder trazer junto a ti, há aquelas que te oferecem sorrisos quando estás a olhar, e críticas quando viras as costas. Também não é coisa que te confira direito à surpresa, porque sabes que isso acontece, mas não é coisa que tu faças, tanto mais que escondes muito mal quando não gostas de algo ou alguém. Chega o momento em que não sabes muito bem se é de chocar ou de entristecer, se é de olhar as gentes de rosto sisudo ou acenar como se nada fosse. Talvez optes por empalidecer, ficar cinzento e reduzir a tua passagem pelo mundo e pelas pessoas a um bom dia e um adeus, talvez a conversa sobre o estado do tempo. As pessoas gostam de falar sobre o tempo. Não as compromete muito.

Talvez seja de recolher a corda que aperta o círculo e deixá-lo reduzir-se a um ponto, tu e mais ninguém, sozinho a passar pelas coisas, a sorrir e a acenar, até que encontres novas pessoas, gente que não te julgue ou diga coisas sobre ti só porque têm cordas vocais aptas, só porque julgam que te conhecem. E talvez seja, muito até, de pegares nas tuas opiniões e guardá-las só para ti, para que não faças o que te desgosta ver nos outros, para que não sejas igual, para que não caia sobre ti a mágoa de julgamentos vazios. Se há coisa que podes fazer, é aprender. Aprender que muito pouca gente te conhece, muito pouca gente sabe quem tu és, e tu também não sabes nada de tanta gente assim.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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