Num plano sem obstáculos, o caminho mais curto entre quaisquer dois pontos é o segmento de recta que os une, como se ir de um ponto a outro fosse algo perfeitamente linear, directo. As nossas vidas não são planos sem obstáculos. São oceanos com correntes, vagas e cristas, rebentamento de ondas contra penhascos, vales e montanhas, rios que correm e, por vezes, prados floridos. As pessoas – todos nós, na verdade – por vezes fazem coisas que parecem contradizer aquilo que dizem querer ou sentir. Damos por nós a pensar “então, mas fulano dizia isto e agora está a fazer aquilo?”, e isso é natural. Natural porque ninguém sabe melhor porque razão faz o que faz senão a pessoa que faz. As nossas opções são ditadas pelas nossas lógicas, porque por muito que tentemos, por muitas palavras e discursos que façamos, nunca ninguém conseguirá conhecer e entender, inteiramente, os nossos processos mentais, as nossas variáveis, as coisas que nos condicionam. Para as nossas vidas, os caminhos mais curtos entre dois pontos, mesmo que pareçam estar perto ou à vista, nem sempre são ir em frente. Somos forçados a zigzaguear. E creio que é por isso que observamos (e quanto nos perturbamos, chocamos ou entristecemos) gente fazer coisas que, à primeira vista – à nossa vista – parecem contradizer tudo o que pensávamos, ou o que nos diziam. E no entanto, se estivéssemos dentro da cabeça do outro, saberíamos que o caminho que visto de fora parece afastar, por dentro, na verdade, aproxima. Por vezes, talvez vezes demais, para ir de A a Z é mesmo preciso fazer as letras todas.

Resistam à tentação de associar isto ao que fiz ou ao que possa fazer. São poucos os que me lêem e me conhecem. Mas existem. Resistam à tentação de colar isto ao que conhecem da minha vida. É uma reflexão que pode colar-se à vida de todos em algum momento, e por isso é vão tentar fazer isso com a minha, mesmo que encaixe em alguma coisa. Estou certo que encaixará. Em muitas que já foram, noutras vidas minhas, como em muitas que ainda por aí venham.

Quando nos entristecemos ou interrogamos, olhando a coisas que parecem contraditórias nas acções de outrém, o truque é dar um passo atrás e procurar outras perspectivas. A leitura inicial, que nos choca, é apenas a leitura do valor facial da moeda. Se olharmos com atenção, veremos seguramente que há mais qualquer coisa que não está à mostra e que vale muito mais do que o que está à vista.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

1 Comments

  1. Não importa o tempo que demoramos para lá chegar, não importa os ziguezagues da vida. Importam todos os momentos em que somos felizes, verdadeiramente felizes sem quaisquer reservas. Acredito que pelo meio de caminhos sinuosos é possível ser feliz. Continua.

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