Mar. Quase chuva. Quando se sentou naquele banco corrido e lhe disse aquilo que apenas carecia de uma confirmação, quando a inevitabilidade se tornou facto, perguntou-lhe – em jeito de afirmação – se estava fodido. Se se sentia fodido. Disse-lhe que estava sobretudo triste. Que fodido fica-se com outras coisas mais mundanas, que o que ali melhor se aplicava era triste. E estava de facto muito triste. Talvez até fodido. Mas depois de espremidas as palavras, o importante não era de todo isso. Tivera tempo para se habituar, tanto quanto podia, à ideia. Tivera tempo, algum, para processar aquilo que sobre ele pendia, e de entre tantas coisas que se podiam pensar, uma, importante, que lhe bailava no pensamento era se a realidade que um dia lhe transmitiriam modificaria algo. Seria diferente? Transformaria alguma coisa de um modo irreparável? Melhor ainda: seria uma pessoa diferente?

Talvez completamente varrida, porventura irremediavelmente doida, mas viria a concluir que não diferente. Não soube se com ou sem surpresa, viria a concluir que era, naquele momento, a mesma pessoa de antes. Não ficou mais, não ficou menos. Claro que teria uma esfera diferente, mas no essencial, a pessoa que era, continuou a ser. Foi assim que percebeu que no fundamental a coisa não mudava. Foi assim que percebeu que há coisas que efectivamente não mudam. Podem complicar-se. Podem parecer explodidas a um ponto que nem supercola aparente resolver, mas não mudam.