Porque se preocupa tanto com o presente? – questionou o Oráculo. No Oráculo, em rigor, não se encontrava divindade nem sequer intermediário, não existiam ali quaisquer poderes divinatórios, nenhum tipo de esoterismo, absolutamente nada que fugisse aos rigores do pensamento lógico, intelectual, terreno. O Oráculo, na verdade, tinha bem mais de filósofo, escondido atrás de livros. O nome dele era Óscar. Figura franzina, com óculos descaídos na ponta do nariz e cabelos grisalhos longos, de cientista maluco – digo-o eu, que afinal conheço um cardiologista de renome que também os tem assim, e não se diz dele que seja maluco. Na escola o Óscar foi muitas vezes gozado pelos colegas. A urbanidade do seu tempo era diferente da actual, e não se falava em bullying, mas os colegas do Óscar eram tão terríveis quanto hoje são, e o desgraçado era muitas vezes tratado como Óscar Alho e empurrado nos corredores. Sempre fora franzino e já em jovem lhe escorregavam os óculos para a ponta do nariz. Sempre absorto nos seus pensamentos, sobre o átomo e umas quantas coisas à volta, era alvo fácil da chacota. A idade trouxe-lhe a Universidade e coisas como a sociologia, a psicologia e a filosofia. Acabou por esconder-se numa livraria, onde nem um centímetro de parede se encontrava, de tão forrada a livros. E sobravam outros, ainda, empilhados em escaparates espalhados pela loja. E atrás do balcão, pendurado num escadote ou sentado num pequeno banco de madeira com os olhos enfiados em livros, estava o Óscar, transformado em Oráculo. Nunca mais tinha sido Óscar Alho, e os anos sobre anos de conversas, e a palavra que passa de uns para outros, fizeram dele “O Oráculo”.

Na livraria misturava-se o cheiro de folhas amarelecidas com outras, lustrosas, acabadas de imprimir. E eu estava diante do Oráculo, tendo metido conversa com ele a propósito de um livro que procurava, e pergunta-me ele “porque se preocupa tanto com o presente”? Ora, parecia-me evidente, porque o presente é onde estou. É onde estamos. Temos os pés enterrados no presente a ter de fazer o que tem de fazer-se. Quotidianamente condenados a gerir o imediato. Torneira, escova, pasta. Roupa. Sapatos. Água. Talheres. Cama. O Oráculo sorriu condescendente e explicou-me que não perdesse tempo a preocupar-me com o presente. O truque, disse-me, era preparar o futuro. Qual futuro? Questionei, se afinal, e como tantas vezes dizia num exagero que me é próprio, o futuro não existe? Se o futuro, como o horizonte, é sítio que sempre foge, e que quando se chega onde se pensa ser ou estar, de futuro ou de horizonte já tudo perderam e são agora presente e aqui? O Oráculo firmou então as mãos no balcão e olhando-me, sério, disse: o presente é transitório. O presente é mais fino que uma qualquer folha de papel do mais leve por metro quadrado que você encontre em algum livro. O presente é uma criação nossa, para as nossas cabeças frágeis, para não nos afundarmos na incompreensão de vivermos esticados entre futuro e passado.

Explicou-me mais ainda, pedindo-me que lhe dissesse qual era o meu prato favorito. Não tenho verdadeiramente um prato favorito, tenho vários. Insistiu que lhe desse, então, um exemplo. Rojões à minhota. Muito bem, pense então no seu prato de rojões. Vê-lo à sua frente e preparar-se para o degustar é o seu futuro, certo? Aceito. É o meu futuro. Então, continuou ele, imagine o momento em que corta a carne e, levando-a à boca, sente o sabor de que tanto gosta e delicia-se. O que é isso para si? E eu respondi, prontamente, que é o presente. É o presente em que me encontro entregue à gastronomia minhota, ora! Não é. Disse-mo com firmeza. Isso, meu caro, é o seu passado. Quando o seu cérebro lhe diz que o rojão está delicioso, está a relatar-lhe algo do seu passado. Do futuro, antes de o levar à boca, até à delícia no seu cérebro, passou directo ao passado. O seu cérebro disse-lhe algo que já tinha sido sentido pelas suas papilas. Não vê? Não vê que embora não o percebamos, o presente é tão transitório que praticamente não existe? E eu não via. Nunca tinha visto. Mas começava a compreender.

Tudo quanto percebemos à nossa volta é passado. De algum modo, mais, ou menos, é tudo passado. O truque, disse-mo de novo, é preparar o futuro. Onde quer estar. Onde quer chegar. Não nos devemos prender demasiado ao passado, nem criar correntes num presente que se desfaz. Olhe em frente. Perceba que quando estiver a preparar o seu futuro, estará também a fazer o seu passado da maneira como o quer. Agradeci, e abandonei a loja de livro na mão, seráfico, a pensar no mundo com essa nova perspectiva que o Oráculo me tinha transmitido. E olhando à minha volta só via gente presa ao transitório, e dei por mim a repetir baixinho e quase inconscientemente, que o presente é mais fino que uma folha de papel.