Fala-me com o corpo

Fala-me com o corpo, porque o corpo não mente. A linguagem é fodida. Os verbos são fodidos. Até as imagens são fodidas. Prestam-se a más interpretações. Mas o corpo não mente. Enrola-te em mim, beija a minha pele, agarra as minhas mãos. Não ligues a palavras incompletas, não tentes encontrar sentido nas frases baralhadas de quem pensa mais depressa do que fala, de quem ensaia um discurso que sai torto. Não leias fotografias cujas cores não têm legenda, nem vídeos de aparente normalidade. Tudo isto são fontes de engano, e o que conta é o que se sente, e o que o corpo conta, no escuro da noite ou na sombra ao abrigo do Sol.

Fala-me com o corpo, cola-o a mim, arrepia-te, arrepia-me. Segura-me com força, aperta-me até partir, gasta-me como gelo que derrete, aquece-me a carne. Desliza em mim, faz-me deslizar em ti. Encaixar, arranhar, doer. As palavras são sempre curtas. As palavras são sempre poucas. Talvez por isso não gostes de perguntas. Não só por isso. Mas talvez também por isso. Talvez também por isso eu também não as aprecie. Embora existam. Muitas. Há sempre perguntas, há sempre coisas que queremos saber, entender, conhecer. Nem sempre uma pergunta que se cala é um interesse que não existe. Por vezes é apenas isso, uma pergunta que se cala, por um qualquer bem que julgamos maior, naquele momento. Nem sempre uma ausência é uma ausência. Às vezes é só a aparência de uma ausência.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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