Não perdi o emprego – ainda – mas fui atirado para vários degraus abaixo na cadeia alimentar. De forma discricionária, para dar o lugar a amigos, passei para uma função que nada tem a ver comigo, rodeado de gente com enormes desafios, com quem todos os dias desaprendo mais um pouco (e prova disso é, entre outras coisas, a deterioração do meu português). Tenho a cabeça a prémio, espreitam as facas longas, mas eu sei. Tinha um grupo de amigos. Era muito divertido. Galhofa sem parar, boa disposição para dar e vender. Dava gozo fazer coisas com eles. Mas afinal, amigos eram poucos, conhecidos eram mais. Uns mostraram a face, outros foram atirados para longe, e eu fiquei sozinho no meu canto. Apaixonei-me e perdi. Nem o ano chegou ao fim, nem este é um balanço. Dispenso-os. É o que é. Aquilo que sobra dos dias. Mas não me declarem morto. Ainda não. As notícias da minha morte têm sido muito exageradas.