É a psicossomática, burro!

Diz-se das doenças psicossomáticas que são aquelas cuja origem está na mente. É algo que hoje aceito sem reserva, mas que algumas mentes mais cépticas dificilmente aceitarão, a não ser que em algum momento tenham encontrado becos sem saída, tenham esgotado as capelinhas médicas, ou tenham diagnósticos pouco consensuais. Uma doença psicossomática não é menos real que as que não o são. Sofre-se à mesma, pode morrer-se à mesma, o corpo vive efectivamente essa doença ou conjunto de sintomas, e são coisas muito reais. As pessoas não inventam ataques de pânico, não inventam cancros, não inventam doenças auto-imunes. E podem sofrer muito, muito mesmo, com tudo isso. E podem morrer com isso. Não se retira valor nenhum às doenças por terem origem na mente. Mas a abordagem para as resolver terá de ser, forçosamente, diferente.

Não estou seguro de que todos tenhamos presente a forte ligação entre a mente e o nosso corpo. Não é apenas um esqueleto com carne que nos segura. A ligação é mais forte, e aquilo que nos produz algum tipo de sofrimento, algum tipo de conflito, manifesta-se no corpo. O que não conseguimos resolver, pode atacar-nos a saúde física. Os conflitos internos fazem isso. Quando temos situações mal resolvidas, conflitos entre o que queremos fazer e o que julgamos poder fazer, fragilidades de algum tipo, é muito fácil o corpo manifestar maleitas. E o caminho a seguir é clarinho: vamos percorrer as capelinhas todas. Vamos fazer variados exames. Vamos procurar em cada médico uma sentença. Algo que diga “Você tem isto!”. E às vezes não acontece isso. Às vezes está tudo normal e não temos nada. Ou então até temos, mas o que a medicina muitas vezes ignora é que temos algo, sim, mas apenas porque o cérebro está em luta com ele próprio, e o que não se resolve no cérebro, sobra para o corpo.

E chegados aqui, assume-se desde logo que a conversa é coisa barata. E nem sequer estraga papel, só castigo o teclado. Em que ficamos? Ficamos na necessidade de não interiorizar tudo perante nós mesmos, escondendo-nos, de não remoer secretamente. Na necessidade de não nos enganarmos. Quanto mais depressa percebemos e aceitamos que temos um conflito para resolver, qualquer que seja, melhor. Temos de resolvê-lo. Verbalizá-lo. Falar connosco mesmos até, antes mesmo de procurar ajuda especializada. Aceitar “eu tenho um conflito”. E identificar o que o provoca. Quando e onde se manifesta. Como se resolve. Dada a forma como funcionamos, mente e corpo, tudo o que guardamos faz-nos mal. Temos de evitar que as coisas se afundem sem solução sempre mais fundo. Temos de as trazer cá acima, e pensar maneiras de nunca as deixar voltar a cair cá dentro, resolvendo-as.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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