Não sabes o que queres

Até parece que não sabes o que queres! Já ouviram isto? Quantos de vós? É uma frase fácil de ouvir-se, porque, estou certo, muitos de nós em algum momento da vida parecemos não ter sabido, ou não saber, o que queremos. Perante os outros, para quem as avaliações são sempre muito mais simples porque a balança não é a deles, chega a parecer que somos indecisos, incapazes de dar um passo ou escolher algo. E é então que nos dizem que não sabemos o que queremos. Mas é mentira. Todos nós sabemos sempre o que queremos.

Quando dizemos ou aparentamos não saber o que queremos, estamos apenas e só a esconder a verdade. A verdade de que temos medo, muito medo. No nosso íntimo nós sabemos sempre, sempre, o que queremos. Sabemos o que somos, o que temos, e o que queremos ter. Sabemos o que nos apetece e o que nos faz sentir bem. Mas se em algumas coisas isso tem o valor que tem, e está à vista, e não exige nada especial para se concretizar, noutras coisas envolve camadas mais profundas de nós mesmos, e nos fundamentos que nos regem (o amor e o medo), os medos podem ser fortes para imobilizar, para nos fazer ter dificuldade em arrancar os pés do chão.

O que precisamos fazer, perante nós mesmos – e nunca perante os outros, deixemo-los lá com os medos deles, que dos nossos só tratamos nós -, é aceitar o que sabemos. Assumir. É um processo interno, percebem? Fomos ensinados a esconder o medo. Foi-nos sempre dito que os nossos medos seriam explorados pelos nossos opositores. E assim que percebemos que no mundo dos adultos é assim mesmo que acontece, mais fundo procuramos enterrar os nossos medos. Para que ninguém os descubra, e ninguém os explore contra nós. E ficamos tão rotinados nesse processo de fuga, que quando nos é útil aceitar os nossos medos, não somos capazes de o fazer perante nós mesmos, como se nós fossemos agir contra nós mesmos.

Que medos temos? Tantos. Desde logo, à cabeça, o medo de falhar. Não gostamos disso. Mas falhar faz parte de viver. Medo de morrer. Medo de adoecer. Medo de não ter tempo. Medo de sofrer. Medo do medo. Temos de abraçar o medo. Abraçar o medo ajuda-nos a tirá-lo do caminho para poder viver o outro fundamento. O amor. Todo o amor. Todos os tipos de amor. E ninguém vos diz que é fácil. Ninguém me disse que é fácil. E eu sei que não é. Mas é a diferença entre Viver ou ir respirando.

João Por baixo, de lado, por cima

O João é Geógrafo físico e produtor de metano. Para além da geografia e da escrita, interessa-se também por fotografia, cinema e bolos da pastelaria do Manuel Natário em Viana do Castelo. E por mulheres, também. Não necessariamente por esta ordem, e nem sempre em separado. É um palhaço, não raras vezes um idiota, e até mesmo um cabrão, segundo opiniões conhecidas.

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