A vida pode entender-se como um conjunto de pequenos contos, páginas vibrantes de pequenos momentos ou pequenas ideias, com pontes feitas por outras páginas coladas, de conteúdos cinzentos, que passamos em conjunto, que passamos à frente. A vida pode ser um conto de casas-de-banho invadidas, em transgressões feitas de gemidos e lábios mordidos, pode ser uma loucura em andares muito altos entre nevoeiro e excesso de botões cujo funcionamento não se quer saber, pode ser a pressa com que deixas para trás gente conhecida para correr rua abaixo em direcção a uma cama quente, pode ser um plano furtivo e perfeito, pode ser tudo quanto se queira.

Pode ser um terraço onde a chuva nos agride, onde cai copiosamente, mas não nos movemos. Cabelos encharcados, a roupa molhada e fria na pele, mas não nos movemos. As gotas que pendem nas pestanas dificultam o olhar que mantemos fixo, um no outro, enquanto as mãos se apertam. E depois abraçam-se os corpos. Colamos a roupa encharcada, trememos, fundimos lábios e pescoços, mordemos orelhas, apertamos músculos. Ou pode ser um sofá largo, invadido por um laranja de Sol oblíquo, morno, no final do dia, quando ora nos esticamos, ora encolhemos. Pode ser um momento de relógios que fazem tic tac mais devagar, com ponteiros que parecem estar parados, nuvens que passam muito devagar sobre as nossas cabeças, ou ondulações longas que nos embalam. Devagar.