Das trocas

O cérebro avalia o valor das coisas através de comparações. Isto é algo que está bem estabelecido, não constitui surpresa nem novidade, e portanto assumo que o meu, igual a todos os outros (a uns mais que outros, concedo), também funciona assim. Comparo para perceber o valor. E, se o faço assim, sinto-me na posse de tudo quanto preciso para refutar uma ideia que em tempos me venderam, com relação às mudanças vividas nos relacionamentos amorosos: a ideia de que uma mudança numa relação não pode ser uma troca. Dito de outro modo, quiseram em tempos dizer-me que nunca corre bem deixar uma pessoa para ficar com outra. Que é melhor deixar alguém, ficar sozinho, e só mais tarde conhecer outra pessoa que nos interesse.

Não concordo – como não concordei à época – com essa visão, porque me parece inevitável que a troca ocorra. A única diferença é ser uma troca de uma presença por outra presença, ou de uma presença por uma ausência. Mas é sempre uma troca. É inevitável. É a forma como funcionamos e raramente fazemos algo para ficar pior. Não estamos desenhados para procurar o sofrimento e o dano pessoal. Estamos orientados para procurar o melhor para nós e aquilo que nos cria maior felicidade, e portanto estamos sempre a avaliar o valor das coisas, com maior ou menor perspicácia conforme os instrumentos que temos. Mas sempre a avaliar, a comparar, a procurar. Assim, dizer a alguém que é mau mudar a vida fazendo trocas de pessoas, é desafiar a forma como os nossos cérebros funcionam. As nossas opções são sempre trocas.

Posted in Crónicas curvas

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