Os teus sapatos altos, pretos, tombaram há pouco. Consigo vê-los daqui. Vieste até mim sobre eles, e foi sobre eles que primeiro te insinuaste, que colaste os teus lábios aos meus, que fizeste o teu corpo pegar-se ao meu. Com uma mão, uma única mão, fiz o meu truque de sempre. Não era já novidade, mas ainda assim sempre te arrancou um “sacana” dito entre dentes, baixinho, enquanto as tuas mãos me puxavam. Ao lado dos sapatos, não muito longe, está caída uma saia. Não resistiu. Há meias. Há a tua lingerie, arremessada à pressa, aquela que eu tanto aprecio mas precisei tirar de ti com urgência.

Há o vinco do colchão, que me quebra o plano de visão, e lençóis, já amarrotados, tristes figuras de uma cama quase desfeita, palco de animais ferozes que juntos afiaram garras e rosnaram, como se após tanto tempo em jaulas fosse agora de libertar tudo, sem freio. Eu estou sentado, encostado à cabeceira da cama, e tu estás deitada sobre mim, com a tua cabeça no meu peito, enquanto te mexo, devagar, nos fios de cabelo. Corro os meus dedos entre a raiz e as pontas, a espaços mergulho o meu nariz para tos cheirar, e arrisco frutos, digo-te que me cheira a côco, ou a maçã, e vou atirando hipóteses para o ar, sem necessidade de acertar, apenas para te dizer que me cheiras bem, que és pomar, que és cheiro da terra húmida na chuva, fresca, muito fresca.

E tu vais mexendo as tuas pernas, vais tocando as minhas, esfregando os teus pés nas minhas pernas, passando as tuas mãos nas minhas coxas (e aqui e ali perguntas, malandra, que coisa é aquela que sentes nas costas…), mas por fim adormeces, encostada a mim, tranquila, embalada na certeza de que ao acordar eu ainda estarei agarrado a ti, e talvez possas, e talvez queiras, dar uso à tal coisa que dizes sentir nas tuas costas. E talvez os animais ferozes voltem a afiar garras, e voltem a rosnar, e no fim digamos que está tudo igual, que é bom, mas bom, estar ali, na cama desfeita, maltratada, quente como um forno.