Caminhos, amor. São caminhos. Olha as cascas que se soltam de mim. Já nem cabelo tenho, foi-se todo, e a barba que me cobre começa a ser branca. Olha os pés, que se picam nas pedras angulosas. São máquinas, amor. Torcem, contorcem, esticam e comprimem. São cabos, é aço, é arame farpado. Olha o meu relógio, doce. Os ponteiros são corações com arritmia. Como extrassístoles do tempo. Joelhos. Esfolados. Olha as minhas mãos. As minhas mãos amor. Segura-me a cabeça e deixa-me tombar devagarinho. Dá-me mimo. Endireita-me o mundo, coloca-me o Norte no Norte, acerta-me o compasso, esbofeteia-me até voltar à vida, abana-me. Arranha-me à procura de dôr, de sangue. Senta-te em mim e deixa cair os cabelos no peito, faz-me cócegas, respira junto a mim. Não desistas de mim. Não antes de todos os outros. Uma linha recta é só isso, não estou morto, são máquinas que enganam. Não deixes que te puxem para fora de mim. Deixa-te estar sentada ao meu colo. A aquecer-me. Esfrega-me as mãos amor. Aquece-mas. Beija-mas e encosta-as à tua face. Não deixes que me levem.