O meu clube é o dos copos meio-vazios. É aborrecido isso, mas é de facto assim. Nunca fui uma pessoa particularmente optimista. Entre raros rasgos de optimismo, muito mais facilmente escorreguei na visão de que as coisas não correriam grande coisa, que havendo algo a falhar, certamente falharia. Não julgo ser – ou ter sido – uma pessoa extremamente negativa, mas quando em torno da neutralidade, mais depressa contemplo a realidade que esvazia, do que a que preenche. Uma bateria de telefone que está a 99% aborrece-me. Não penso “boa, ainda faltam 99%”, penso “raios, que depressa desceu dos 100%”. É muito por aí.

Havendo coisas que nos definem, e que dificilmente se alteram, há sempre espaço para modificar perspectivas. Eu poderei ter dificuldade em alterar a minha letra, porque foi algo que cresceu comigo, e as linhas longas com que arrasto a escrita são difíceis de modificar, assim fosse necessário. Mas não preciso ser, para sempre, um membro dos copos meio-vazios. O que está meio-vazio está sempre a esmagar-nos, a puxar-nos para baixo, e para baixo um pouco mais. Nem como defesa serve, porque olhar a vida meio-vazia não nos torna imunes à desilusão. E se assim não é, então para que serve? A dado momento percebi que tenho de deixar-me disso. Que não é solução. Que não posso estar a sofrer por antecipação face à intervenção de Murphy e das suas leis. Tenho de olhar sempre para cima, mais acima, mais à frente. Não posso fazer nada diferente disto, sob pena de me arrastar, viscoso, pelas bermas.

O meu coração tem de continuar, tem de bater, tem de ser mais cheio que vazio. O meu coração tem de sorrir, tem de ser porto de abrigo, tem de ser história e futuro, calor e fervor. Hoje entrego o cartão de sócio. Não me faço mais militante do clube dos meio-vazios. Passo a olhar a vida pelo outro lado do espelho, pelo outro lado do copo, pelo lado que ainda vai fazer, nunca daquele que apenas já fez, sem mais. Passo a fazer parte daqueles que ainda vão escrever as frases bonitas, e não daqueles que já escreveram tudo. Nunca está tudo dito, escrito, feito. E, se assim é, nunca estamos a caminho do nada. Estamos na esperança do tudo.