A dado momento interroguei-me porque razão existiam opiniões marcadas a meu respeito. Que me havia posto a jeito, era óbvio. Mas porquê opiniões tão marcadas? E até de gente que mal me conhece, que me terá visto por curtos instantes e tão depressa se sentiu autorizada a dizer que era de esperar, que até se surpreendiam como não tinha feito isto ou aquilo mais cedo. Como podia isso explicar-se, à margem da natural explicação de as opiniões serem (facilmente) abundantes e de borla?

Recordo muito bem o dia em que uma amiga minha me disse que eu era difícil de ler. Que o meu rosto é muitas vezes seráfico, e que isso cria uma enorme dificuldade às pessoas em ler-me, em saber como me interpretar, em saber que juízo estou a formar. Talvez por isso as primeiras impressões que crio sejam tão negativas. Estou habituado a que as pessoas me julguem arrogante, distante, até altivo. Também estou habituado a que aquelas que por alguma razão são forçadas a passar a rebentação, acabem por mudar de opinião, e por perceber que penetrando a máscara, há mais em mim do que aquilo que se vê. Como uma vez me escreveram, e transcrevo, «there is so much more to you than meets the eye». Eu oscilo entre a timidez e a extroversão. Tão depressa sou o indivíduo que hesita entrar sozinho num restaurante como a seguir estou rodeado de gente, a dizer-lhes piadas desabridas que fazem ruborescer as faces (quando não mais que as faces). Eu sou isto. Sou esta plasticidade, esta amplitude, esta coisa mais do que aquilo que se vê, e tentaram explicar-me, recentemente, que isso desarma as gentes, que confunde as gentes. E que as gentes gostam de gente previsível. Fácil de ler. E eu não sou nada disso. Disseram-me ainda, que quando as gentes se confrontam com quem não conseguem ler, defendem-se dizendo coisas. E isso explica, talvez, a surpresa que tive ao descobrir tanta gente que de repente dizia coisas sobre mim. Percebo. Nunca me conseguiram ler.