O mundo não tem príncipes nem princesas. Nem perfeitos, nem adormecidas. O mundo tem gente que navega balizada entre os brancos e os pretos, tentando, todos os dias, fazer aquilo que considera melhor. Para saber escrever e brincar com os números, fizemos os primeiros anos de escola. Para conduzir, fizemos aulas. Para trabalhar, muitos de nós fizeram um curso. Para ir mais longe, muitos de nós continuam a estudar, a aprender. Para tudo quanto é nosso objectivo, precisamos trabalhar. Não aprendemos a escrever do dia para a noite, não conduzimos de repente, nem condensámos a nossa formação académica num instante. No mundo que não tem príncipes nem princesas, as coisas não acontecem por magia, nem tão pouco o querer (muito) agora é sinónimo de poder (já). De um fito nasce um caminho.

Todos nós temos os nossos blocos fundamentais. Aquilo que nos define, que nos faz caminhar em pé e de cabeça erguida, ainda que corra água e sal, para dentro. Como tudo, como sempre, o que se constrói apressadamente, mesmo que sobre uma vontade forte e legítima, fica mais frágil. As tempestades deixam os nossos blocos fundamentais mal equilibrados, passíveis de valente tombo. Se nos dedicarmos à descoberta – ou mesmo, diria, à aceitação do que sabemos mas não queremos admitir -, veremos que os blocos fundamentais são ladeados por outros, acessórios, que não são exactamente nossos. Vão ficando pelo caminho, à medida que aprendemos mais sobre quem somos e o que queremos. Mas quando sabemos o que queremos, quando temos o nosso fito, o pé que passa o outro faz-se caminho, e andando chegamos lá.

Quando entramos em turbilhão, quando tudo nos parece correr mal, é quando sentimos que não temos onde nos segurar. Passamos a ser equilibristas de circo, caminhando sobre um muito fino cabo de aço. É quando se formam as mais diversas opiniões, quando o mundo se  sente capaz de dizer, com leviandade, tudo quanto lhe apraz, projectando com inconsequência sobre outros os estados de alma alheios, calçando outros sapatos que não os nossos. Aqui e ali surgem outros ecos, de gente que se preocupa, que quer bem, gente em quem nos podemos rever, mesmo não sendo príncipes nem princesas. Não se fica muito tempo no circo, a fazer equilibrismo sem rede, se não existir amor, se não existir gente que nos queira ver passar para o outro lado do cabo, em segurança, inteiros, conscientes. À medida que tudo se move no vazio, que os planetas giram sobre si e sobre o sol, os círculos não são mais do que helicoidais, e nunca passamos no mesmo ponto. Estamos sempre a ir em frente, mesmo quando nos parece estar dentro da máquina de lavar.

O mundo não tem príncipes nem princesas. Mas tem gente que é igual. Gente que faz, dentro de si e das suas paredes, aquilo que sente precisar fazer. Com aquilo que tem. Com o que não tem. Com o que sabe. E o sentimento de urgência é terrível, tão depressa esmaga quanto distende. Mas sempre há quem completa, quem encaixa, quem tem contornos tão parecidos que julgamos ser a parte que compõe o todo. Não serão príncipes nem princesas, mas serão gente nossa, guardada lá dentro, gente que faz falta, de quem se sente falta. Muita. A gente do nosso coração.