Tive a oportunidade de triar os meus amigos. Perceber que alguns são realmente amigos, outros são conhecidos travestidos de amigos. É importante passar pelas tempestades para perceber quem é quem. Na bonança está sempre tudo bem, todos são sorrisos e palmadinhas nas costas. Nas tempestades não. E nada disto é novidade. Mas a experiência tem de viver-se. Saber-se algo porque nos contam, ou porque vemos acontecer com outros, não nos chega. Não nos ensina nem nos serve da mesma forma. É preciso viver a coisa. Entrar dentro dela. Ficar com a lama até à ponta dos cabelos para se saber como é.

Os amigos não julgam. Poderão ter opiniões, obviamente. Dizem-nos o que pensam se lhes for pedido que o façam. Mas não forçam, não injectam, não atiram pedras. Os amigos estão sempre presentes, independentemente da concordância ou da surpresa que lhes cause alguma atitude nossa. Os amigos oferecem ajuda, oferecem presença. Não tomam partidos. Aceitam-nos como somos. Aceitam as nossas circunstâncias. E compreendem que se hoje somos nós, amanhã podem ser eles. Gente perfeita, lamentamos, não há.

E depois existem os outros. Os outros afastam-se. Não querem saber. Ou então tomam partidos, julgam-te e condenam-te. Atiram sobre ti acusações revestidas de moralidade. Julgam-se imunes. Certos. Essa não é a gente do meu coração. A gente do meu coração sabe que as coisas não são assim. A gente do meu coração sabe que a amizade não é acusação. É compreensão. É querer bem. Querer felicidade, que se faz pelos caminhos individuais e não ao espelho da existência dos outros.

Tive a oportunidade de aumentar o número de conhecidos. E de diminuir o de amigos. E não posso dizer que tenha, afinal, sido uma má coisa. Sei melhor com o que conto. De entre quem conheço, conheço agora melhor os brancos, os pretos, e os cinzentos.