Estou sentado debaixo do Sol. Imagine-se, eu, sentado ao Sol, sem sombra alguma – confesso que com algum sofrimento, que o Sol está forte. O mar abre-se à minha frente, assim como um pedaço de praia, uma torre inclinada, uns cactos e uma cadeira vazia. Debaixo do Sol estou eu, sozinho, à conversa com uma margarita cujo gelo derrete depressa demais. Naquele espaço todos estão acompanhados. Reparei nisso precisamente porque estava sozinho. Conversam alegremente. À minha esquerda, um grupo de raparigas jovens evapora jarros de margaritas de morango. À minha direita, um casal jovem almoça num romantismo sem piada (avaliação minha, porque as pernas não se tocam debaixo da mesa, como quem diz que hoje, hoje vou-te foder tanto, tanto…), e atrás de mim dois homens maduros conversam sobre contratos de fidelização de serviços triple play. E eu ligo e desligo, ora estou ali ora não estou, debaixo do Sol, a pensar quem diria, quem me imaginaria a derreter, a derreter quase tão depressa quanto o gelo da minha margarita.