Foi contigo que me apaixonei pelo meu nome. Sempre gostei dele. Apesar de amálgama de vogais e ainda por cima nasalado, sempre gostei dele. E sempre ficou doce na boca das mulheres. Mas contigo apaixonei-me pelo meu nome. O meu nome foi dito, foi exclamado, foi gemido. Nunca outra boca, nenhuma outra voz, fez do meu nome o que tu dele fizeste.

Foi contigo que me apaixonei pelo teu nome. Nunca o havia sentido perto de mim. Sempre me fora neutro. Mas deste-lhe dimensão. Fizeste dele mais do que o espaço que ocupa. Disse-o várias vezes, prolonguei-lhe os tempos, as sílabas. Projectei-o para lá da minha boca e dos meus dedos. Fi-lo ecoar em cabelos, escorri tinta, castiguei teclas com ele.

Na prática, por via dos nossos nomes, penetraram-se as máscaras duras. A minha, de arrogante, a tua de corporate bitch. Recordo-me de um sonho que tive. E da surpresa que isso gerou em mim. E de como, mais tarde, compreendi que existem duas pessoas de ti. Aquela que toda a gente vê, e a outra, que talvez apenas eu veja. Consegui ler o teu olhar. Consegui ler a tua pele. Consegui ler para além de ti, dentro de ti. E por isso os nomes soam diferentes. Há um antes e um depois. Se naquele sonho o meu nome foi dito com uma doçura que viria a confirmar, também o teu, dito por mim, será sempre mais doce do que apenas o som mecânico das suas letras.